Em resumo
- Comissão de quatro conselheiros foi criada para analisar contrato que traz R$ 110 milhões em empréstimo e R$ 30 milhões pela gestão da caixa 29A.
- NewC contesta a licitação e afirma que sua proposta de R$ 500 milhões não recebeu análise comparável à da Ticketmaster.
- Clube defende Ticketmaster como empresa global confiável com parecer jurídico favorável indicando baixo risco.
- Votação no Conselho Deliberativo ainda não ocorreu; decisão final depende da análise da comissão.
O Conselho Deliberativo do São Paulo acredita que merece tempo para examinar um dos contratos mais relevantes dos últimos anos. Na terça-feira, seu presidente Olten Ayres determinou a formação de uma Comissão de Análise de Contrato — integrada pelos conselheiros Daurio Speranzini, Flavio Marques, Daniel Fonseca e Marcel Bonilha — para avaliar o acordo que o clube negocia com a Ticketmaster sobre a gestão de ingressos do Morumbis.
A urgência que envolveu a decisão reflete o contexto crítico: o São Paulo precisa arrecadar R$ 180 milhões com vendas até o fim de 2026. Mais imediatamente, os R$ 110 milhões que a Ticketmaster se comprometeu a antecipar e os R$ 30 milhões pela gestão da caixa 29A por cinco anos são vitais para acertar atrasos no pagamento do elenco nesta temporada.
O presidente Harry Massis defendeu a escolha pela Ticketmaster, descrita como uma das maiores empresas globais do setor de ingressos, mas em um áudio vazado cobrou o Conselho sobre a votação. A estrutura de poder mostrou-se frágil: enquanto a Diretoria e o Conselho de Administração já aprovaram por unanimidade, a efetivação do contrato depende do voto do Conselho Deliberativo.
A Proposta Ticketmaster em Números
Os R$ 140 Milhões Imediatos
O contrato prevê que a Ticketmaster antecipe R$ 110 milhões para o São Paulo em até 45 dias após a assinatura, estruturado como empréstimo. O clube terá cinco anos para devolver o valor com taxa de juros calculada sobre o CDI (Certificado de Depósito Interbancário) acrescido de 1,99%. A devolução será extraída da receita de jogos no Morumbis, mas com um teto: máximo R$ 1,8 milhão ao mês.
Além disso, a Ticketmaster pagará R$ 30 milhões logo após a assinatura pelo direito de gerir a caixa 29A por cinco anos em shows e partidas. Somados, os R$ 110 milhões e R$ 30 milhões atingem R$ 140 milhões — precisamente o que o São Paulo catalogou como essencial para quitar débitos com os jogadores nesta temporada.
Novas Receitas do Museu e Taxas Operacionais
A proposta inclui ainda R$ 6 milhões para reforma do Museu São Paulo. Na operação diária, a Ticketmaster cobrará taxa de administração de até 10% por ingresso — 8% se o bilhete for físico em vez de digital. Para o programa de sócio-torcedor, que hoje é gerenciado pela Feng e passaria para a Ticketmaster, a taxa fica em 8% por associado.
A unificação dos dois serviços (ingressos e sócio-torcedor) sob uma única empresa é justificada pela diretoria como economicamente mais viável: evita concorrência por lucro entre dois fornecedores e reduz custos totais que o clube pagava quando os serviços eram separados.
A Disputa com a NewC e Alegações de Irregularidade
Um Processo de Licitação Questionado desde o Início
A NewC, empresa dinamarquesa que participou da concorrência, questiona a condução do processo desde o princípio. Segundo comunicado de Cesar Augusto Sbrighi, Country Manager da NewC no Brasil, a empresa não foi convidada para participar e só tomou conhecimento da oportunidade pelo mercado. Manifestou interesse em 13 de abril, utilizando um documento de tomada de preços que circulava desde março, mas a autorização para participar veio apenas em 24 de abril — 11 dias depois.
O convite para apresentar proposta só chegou em 26 de maio, um mês depois. Na ocasião, informaram que o material de referência utilizado não correspondia mais à versão vigente da concorrência. A NewC recebeu então o instrumento atualizado.
Seis empresas participaram da licitação de ingressos. Durante todo o processo, nenhum participante questionou as regras do edital, segundo a Diretoria — as dúvidas surgiram apenas após a escolha da Ticketmaster.
A Proposta de R$ 500 Milhões que Não Virou Documento Formal
No dia 6 de julho, a NewC apresentou em reunião uma nova estrutura financeira, desta vez de cerca de R$ 500 milhões, elaborada em parceria com a ANGA Asset e com suporte jurídico da Demarest Advogados. Segundo Sbrighi, essa operação ia além da antecipação de aproximadamente R$ 90 milhões oferecida na primeira proposta, representando um avanço significativo nas negociações.
Após a reunião, o clube manifestou interesse, prometeu analisar e dar retorno. Após cobranças, houve nova sinalização de continuidade. Em 22 de julho, a NewC enviou versão atualizada da proposta, solicitou informações complementares e pediu reunião com a presidência. Este e-mail, de acordo com Sbrighi, nunca foi respondido.
A Diretoria, porém, define essa operação de R$ 500 milhões não como uma proposta formal, mas como um conjunto de slides com uma ideia preliminar envolvendo estrutura financeira vinculada ao estádio. O material previa a participação da Lu Arenas, empresa presidida por Bruno Balsimelli, e sugeria a criação de uma operação por fundo de investimento imobiliário que poderia levantar até R$ 500 milhões, sem garantia de que o montante seria efetivamente alcançado.
Silêncio da Diretoria em Agosto Marca o Ponto de Ruptura
Em agosto, sob gestão do novo diretor de marketing André Marques, a diretoria enviou e-mail à NewC, mas com conteúdo que, segundo Sbrighi, estava “dissociado” de tudo o que havia sido discutido até então. Simultaneamente, informações divulgadas pela imprensa e confirmadas pelo próprio São Paulo indicavam que o clube já estava na fase de elaboração da minuta contratual com a Ticketmaster.
A NewC questiona a profundidade de análise que sua proposta recebeu em comparação com sua dimensão. Sbrighi sugeriu que mensagens, documentos, vídeos, atas e registros do processo fossem compartilhados com a presidência do Conselho Deliberativo.
Os Riscos e Proteções Jurídicas do Contrato
O clube encomendou parecer jurídico sobre os riscos do acordo. O estudo concluiu que o contrato oferece baixo risco e que a Ticketmaster não possui posição dominante no mercado brasileiro de gestão de ingressos. O contrato também prevê possibilidade de rescisão unilateral, sem multa, caso a Ticketmaster enfrente problemas na Justiça brasileira.
A Diretoria ressalta que qualquer operação envolvendo um patrimônio da magnitude do Morumbis exige análise rigorosa e segurança jurídica. Por isso, descarta a proposta da NewC como base de comparação: é apenas um projeto embrionário, não uma oferta formalmente comparável dentro da mesma concorrência.
O Histórico de Lu Arenas e a Questão da Compliance
A participação da Lu Arenas foi apontada pela área de Compliance do São Paulo como um obstáculo às negociações. A empresa tem histórico controverso: o Governo de Minas Gerais revogou sua concessão da Arena Independência, declarando a caducidade do contrato por descumprimento de obrigações. Segundo comunicado oficial do próprio governo, a Lu Arenas deixou de repassar valores ao poder público desde 2015, acumulando débito de aproximadamente R$ 36 milhões.
A Diretoria critica o fato de que representantes ligados à Lu Arenas optaram por pressionar o clube e promover circulação de informações fora dos canais institucionais, em vez de conduzir negociações pelos caminhos formais.
O Próximo Passo: A Votação no Conselho Deliberativo
O contrato foi enviado ao Conselho Deliberativo em 27 de agosto para análise e deliberação. A formação da comissão criada por Olten Ayres — três membros identificados com a oposição e apenas um da situação — estabelece “evidente desequilíbrio” segundo a Diretoria, criando uma etapa adicional que retarda a apreciação.
A Diretoria repudia veementemente a postura do presidente do Conselho Deliberativo e da NewC, descrita como uma tentativa de prejudicar um processo estruturado e conduzido ao longo de mais de quatro meses. Defende que a proposta da Ticketmaster apresentou, de forma inequívoca, as melhores condições para o São Paulo Futebol Clube.
O patrimônio, a reputação e o futuro do São Paulo dependem agora do voto dos conselheiros, que precisam decidir se as garantias oferecidas pela Ticketmaster — empresa multinacional consolidada no setor, com parecer jurídico favorável e estrutura de baixo risco — superam as dúvidas levantadas sobre a condução do processo de escolha.
Perguntas frequentes
Por que o São Paulo criou uma comissão para analisar o contrato com a Ticketmaster?
Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo, determinou a análise após receber questionamentos da NewC sobre a condução do processo de escolha da empresa como gestora de ingressos.
Qual é o valor total que a Ticketmaster antecipará ao São Paulo?
Ticketmaster antecipará R$ 110 milhões como empréstimo a ser devolvido em cinco anos com taxa CDI + 1,99%, além de R$ 30 milhões pela gestão da caixa 29A por cinco anos, totalizando R$ 140 milhões.
Qual era a alternativa proposta pela NewC?
NewC apresentou uma operação de cerca de R$ 500 milhões em parceria com ANGA Asset, envolvendo estrutura de fundo de investimento imobiliário; porém, a Diretoria argumenta que não foi uma proposta formal comparável à da Ticketmaster.