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Ticketmaster e a luta pelo poder no São Paulo meses antes das eleições

Em resumo

  • Harry Massis cobra votação urgente do contrato com a Ticketmaster no valor de R$ 140 milhões para resolver a crise financeira do clube e quitar salários atrasados dos jogadores.
  • Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo, criou uma comissão de análise para avaliar o contrato antes de submetê-lo à votação, bloqueando a decisão que Massis considera urgente.
  • A tensão entre os dois dirigentes escalou ao longo de 2026 com episódios de acusações recíprocas, tentativas de expulsão e investigações policiais sobre supostas irregularidades.
  • A disputa pela Ticketmaster serve como termômetro da corrida eleitoral do São Paulo, com eleições de conselheiros em novembro e presidencial em dezembro, onde Massis e Marcelo Portugal Gouvêa Jr. devem se enfrentar.

A dois meses da eleição presidencial do São Paulo, a disputa de poder entre a diretoria executiva e o Conselho Deliberativo ganhou novos contornos com o debate em torno do contrato com a Ticketmaster. O clima institucional está tenso desde que Harry Massis assumiu a presidência do clube em janeiro de 2026, após a renúncia de Julio Casares, até então aliado político de Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo. Os dois dirigentes pertencem a grupos distintos e são considerados adversários políticos.

O contrato que divide o clube

A negociação com a Ticketmaster para que a empresa passe a gerenciar os ingressos do Morumbis representa uma cifra significativa para o clube: R$ 140 milhões de adiantamento. Para Harry Massis, a aprovação do contrato é fundamental para resolver dois problemas imediatos: quitar pendências financeiras com os jogadores e amenizar a situação de fluxo de caixa, que está crítica.

O Conselho de Administração já havia aprovado o acordo, passando a bola para o Conselho Deliberativo. No entanto, Olten Ayres não submeteu a proposta à votação como seria esperado. Em vez disso, criou uma Comissão de Análise formada por quatro conselheiros — três da oposição e um da situação — para avaliar detalhes do contrato antes que fosse levada à plenária.

Os questionamentos da NewC

A criação dessa comissão veio após a NewC, empresa que também participou da disputa para gerenciar os ingressos, levantar questões sobre a condução do processo de seleção. A NewC apresentou uma contraoferta no valor de R$ 500 milhões, significativamente superior à da Ticketmaster, e questionou a regularidade do edital.

Diante dos questionamentos formulados pela concorrente, Olten Ayres optou por recomendar uma análise mais rigorosa do contrato antes de colocá-lo em votação na plenária do Conselho Deliberativo. A posição gerou tensão imediata com a diretoria, que via no atraso uma ameaça ao cronograma de resolução dos problemas financeiros do clube.

A escalada de conflitos entre os poderes

O embate atual não surgiu do nada. Desde que Massis assumiu o comando da diretoria, uma série de crises marcou a relação entre o presidente e o Conselho Deliberativo, gerando um histórico de acusações recíprocas e manobras políticas.

Os episódios que precederam Ticketmaster

Em fevereiro de 2026, Olten Ayres recebeu uma denúncia que apontava participação de Chris Massis, filha do presidente, na venda ilegal de ingressos para shows no Morumbis. O presidente do Conselho Deliberativo convocou uma reunião extraordinária do Conselho Consultivo para discutir a possibilidade de abrir um processo de impeachment contra Harry Massis. O órgão se reuniu, mas o presidente permaneceu no cargo, saindo ileso da crise.

A situação piorou em abril, quando Harry Massis protocolou um pedido de expulsão de Olten Ayres do clube. A acusação: gestão temerária por supostas irregularidades em uma proposta de reforma estatutária que, conforme a denúncia, não respeitou o rito previsto no estatuto. O movimento representava uma escalada significativa no confronto entre os dois dirigentes.

As investigações internas e policiais

Durante a apuração interna das acusações contra Olten Ayres, a Comissão de Ética do São Paulo identificou indícios do que considerou falsidade ideológica. Segundo o órgão, um documento que seria assinado por José Eduardo Mesquita Pimenta e Ives Gandra, ambos membros do Conselho Consultivo, teria sido entregue pronto por Olten Ayres para que eles simplesmente apusessem suas assinaturas. A Comissão de Ética encaminhou o caso à Polícia Civil para apuração.

Olten Ayres, então, tentou remanejar os membros da Comissão de Ética. A manobra não prosperou: seu vice, João Farias, impediu o afastamento dos conselheiros e determinou que o presidente do Conselho não participasse de qualquer decisão relacionada às investigações que o envolviam. Diante do isolamento político, Olten pediu afastamento do cargo para preparar sua defesa enquanto era investigado tanto pela Polícia Civil quanto internamente.

Em junho, o pedido de afastamento protocolado por Massis foi rejeitado, e Olten retornou ao cargo. O resultado foi interpretado internamente como uma vitória para a oposição e uma derrota para o presidente executivo. Em julho, o Ministério Público arquivou a denúncia de falsidade ideológica por ausência de tipicidade penal da conduta investigada, encerrando a investigação criminal.

O contraataque do Conselho

Ainda em julho, conselheiros apresentaram uma representação pedindo o afastamento de Harry Massis e a abertura de um processo disciplinar contra o dirigente. O documento apontava supostos indícios de gestão temerária, violações estatutárias e comprometimento da governança. Um dos pontos mencionados era justamente o atraso de salários dos jogadores, que Massis agora diz resolver com o avanço da Ticketmaster. A Comissão de Ética arquivou essa representação, o que tornou ainda mais urgente, do ponto de vista de Massis, a aprovação do contrato e a entrada dos recursos.

O áudio vazado e a pressão por votação

Na terça-feira anterior ao momento em que este texto foi escrito, um áudio de Harry Massis circulou pelos bastidores do São Paulo. Na gravação, o presidente da diretoria cobrava de colaboradores que pressionassem Olten Ayres para colocar o contrato da Ticketmaster em votação no Conselho Deliberativo. O tom revelava desespero e frustração com a demora.

“Eu preciso que vocês ajudem a fazer o presidente do CD colocar na pauta para ser votado. Porque se segurar e não for votado, não vamos cumprir nada. Não vai ter dinheiro para pagar nada, tá? Entendido? Tem muita gente bocuda que fala o que não deve falar e cai sobre a minha pessoa”, disse Massis no áudio vazado.

A mensagem deixava clara a visão de Massis sobre a urgência da aprovação: sem o avanço de R$ 140 milhões, o clube não conseguiria honrar seus compromissos financeiros imediatos. Para o presidente, a demora de Olten na votação representava não apenas uma questão administrativa, mas um ataque à sua administração.

A resposta de Olten e o impasse

Apesar da pressão, Olten Ayres manteve-se firme na posição de submeter o contrato à análise rigorosa da comissão por ele constituída. Em nota divulgada após o vazamento do áudio de Massis, o presidente do Conselho Deliberativo defendeu sua posição: “A situação financeira do São Paulo torna ainda mais necessária a avaliação rigorosa de compromissos que possam afetar suas receitas. A urgência na obtenção de recursos deve ser acompanhada de informações completas sobre custos, garantias, obrigações e consequências da contratação”.

O posicionamento de Olten revela uma estratégia clara: usar a análise técnica como mecanismo de resistência às prioridades de Massis. Enquanto a comissão analisa o contrato, o presidente do Conselho Deliberativo ganha tempo e mantém o poder de veto sobre uma votação que poderia fortalecer a posição política de seu rival.

O calendário eleitoral e o que está em jogo

A eleição de novos conselheiros está marcada para a segunda quinzena de novembro, seguida pela eleição presidencial na primeira quinzena de dezembro. O embate em torno da Ticketmaster funciona como um indicador da temperatura política dentro do clube conforme a votação se aproxima.

Harry Massis está avaliando a possibilidade de ser candidato à reeleição. Sua concorrência inclui Adilson Alves Martins, entre outros conselheiros. Do lado da oposição, Olten Ayres havia apoiado inicialmente uma candidatura de Rogério Caboclo, ex-presidente da CBF, mas a rejeição ao nome foi tão grande que a possibilidade não avançou. Marcelo Portugal Gouvêa Jr. deve ser o escolhido pelo grupo de oposição para disputar a eleição.

A disputa pela Ticketmaster não é apenas sobre R$ 140 milhões. É, fundamentalmente, sobre quem controla o São Paulo nos próximos anos. Para Massis, aprovar o contrato é resolver um problema financeiro imediato e, ao mesmo tempo, demonstrar governança e capacidade de liderança antes do pleito. Para Olten e seus aliados, bloquear ou atrasar a votação enfraquece Massis e reforça a mensagem de que ele não consegue controlar nem a própria diretoria.

Perguntas frequentes

Por que Massis considera o contrato da Ticketmaster tão urgente?

O adiantamento de R$ 140 milhões é fundamental para quitar dívidas com jogadores e resolver problemas de fluxo de caixa que Massis herdou quando assumiu em janeiro de 2026.

Qual é a estratégia de Olten Ayres para bloquear a votação?

Criar uma Comissão de Análise para avaliar o contrato, ganhando tempo e mantendo poder de decisão enquanto responde a acusações de Massis sobre gestão temerária.

Como o contrato da Ticketmaster afeta a corrida eleitoral?

Aprovar o contrato fortaleceria Massis antes das eleições de dezembro, enquanto bloqueá-lo enfraquece sua imagem de gestor; a disputa reflete o embate entre candidatos que devem se enfrentar.

Written by
Thiago Venâncio

Thiago Venâncio acompanha a base e as categorias de formação do São Paulo, uma das mais tradicionais fábricas de craques do país. Escreve sobre os talentos que despontam em Cotia antes de chegarem ao profissional.