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São Paulo se vê preso em crise institucional que o game over em campo apenas expõe

Em resumo

  • O São Paulo eliminou-se da Copa Sul-Americana ao empatar 1-1 com o Boca Juniors, expondo uma crise institucional que começou em 2010 e nunca foi resolvida.
  • A ruptura de 2010 com Juvenal Juvêncio quebrou o modelo de controle de gastos, levando a dívida de R$ 600 milhões, déficit de R$ 129,6 milhões e atrasos salariais recorrentes.
  • Julio Casares prometeu renovação, conquistou títulos (Paulistão 2021 e Copa do Brasil 2023), mas foi expulso do clube em setembro de 2026 por gestão temerária e saques milionários.
  • O clube repete o mesmo ciclo há 13 anos: demite treinadores quando a situação piora, muda de dirigente e espera mudança de resultado, enquanto a crise institucional permanece intocada.

O empatou 1 a 1 com o Boca Juniors na terça-feira à noite no Morumbi marcou o fim: o São Paulo saía da Copa Sul-Americana, sua única chance real de título em 2026. O time não conseguiu nem ter posse, foi passivo, nervoso, amplamente dominado por um Boca que em nada se parecia com a força histórica de antes. Dorival Júnior havia descansado os titulares. Em campo, o resultado foi um desastre.

A torcida lotava o estádio. O frio que não dava trégua a São Paulo evocava aqueles invernos vencedores do começo dos anos 1990. Dentro das linhas, porém, nem resquício daqueles tempos: um elenco que no papel tinha nomes que dariam um time respeitável — Luciano, Artur, Domingos Duarte, Marcos Antônio — funcionava como um mecanismo quebrado.

Não se trata de questionar o trabalho de Dorival Júnior. O treinador é o único que venceu a Copa do Brasil pelo clube e aceitou sua terceira passagem aqui sabendo que herdava uma estrutura detonada. O problema real mora em outro lugar: fora das quatro linhas, em terreno institucional. É ali que reside a raiz de uma crise tão profunda que nem Dorival consegue reconstruir de um dia para o outro.

O São Paulo que conhecia só a grandeza

Fundado em 1930 como resultado da fusão entre o SC Internacional e o Club Athletico Paulistano — ambos já clubes ricos —, o São Paulo nasceu destinado à vitória. Durante décadas, isso foi lei. A história do clube é um currículo impressionante:

  • Anos 1940: cinco títulos conquistados, financiados pela contratação mais cara do futebol brasileiro até então — Leônidas da Silva
  • Anos 1960: inauguração do Morumbi, o estádio mais moderno do Brasil da época
  • Anos 1970: segundo time paulista a vencer o Campeonato Brasileiro, conquistando o título em 1977
  • Anos 1980: revolucionou a forma de jogar com o mítico Cilinho e os “Menudos do Morumbi” no fim da década
  • Anos 1990: o melhor trabalho de um treinador na história do clube sob Telê Santana, com nove títulos na era
  • Anos 2000: maior clube brasileiro da década, com Libertadores, Mundial e tri-campeonato entre 2006 e 2008 sob Muricy Ramalho

Crise, seca, período difícil? Essas palavras não faziam parte do script são-paulino. Atraso de salário e renúncia de presidente eram coisas do noticiário do Palmeiras ou do Corinthians, não deles. Havia muito orgulho da solidez do clube que, mesmo em anos menos produtivos, sempre chegava perto graças à máquina de vender jovens para o exterior a preços altos ou permitir que jogadores se tratassem de lesões na estrutura do Reffis em Cotia.

A única exceção foi entre 1957 e 1970, quando todos os esforços se concentravam em terminar o Morumbi. Uma desculpa mais que plausível para qualquer torcedor que viveu aquele tempo.

2010: quando a ruptura institucional começou a cobrar preço

O filósofo Søren Kierkegaard observou que a vida só pode ser compreendida olhando para trás, embora precise ser vivida olhando para a frente. Voltemos a 2010. É ali que germina a ruptura institucional que custaria caro no futuro: o terceiro mandato de Juvenal Juvêncio.

Até então, reeleição era proibida no clube. Uma decisão judicial que corria pelas linhas da lei, com ajuda de Carlos Miguel Aidar, permitiu que Juvenal se mantivesse no poder. Diferentemente do que havia feito como diretor nos anos 1980, passou a gastar mais do que o clube podia, aumentando a dependência de venda de jogadores como Breno, comercializado a altíssimas cifras em 2007, para manter as contas em dia.

O pacotão de Natal de 2009 e a quebra do modelo

Isso representava uma ruptura completa com o modelo anterior de Marcelo Portugal Gouvêa, que gastava pouco e apostava na fórmula Muricy para vencer. O símbolo máximo dessa quebra? O famoso “pacotão de Natal” em 2009, quando cinco jogadores foram contratados a altíssimas cifras sem o aval de Muricy Ramalho. O impacto foi imediato: o São Paulo começou a contratar mais do que podia, gastar além da capacidade e não conseguia mais vender tanto quanto antes.

De 2012 em diante: a crise que ninguém aceita

A história mostra que toda ruptura institucional cobra seu preço. Em 2012, a Copa Sul-Americana maquiava o problema, mas 2013 revelava a profundidade: pela primeira vez na era dos pontos corridos, o São Paulo brigava contra o rebaixamento e só escapava com Muricy Ramalho no comando. Era um aviso que ninguém ouviu.

Carlos Miguel Aidar foi eleito em 2014 e durou um ano e meio. Renunciou em outubro de 2015 cercado por denúncias, gravações comprometedoras e uma guerra interna que aprofundava ainda mais a crise. Seu sucessor, Leco — Carlos Augusto de Barros e Silva —, tentou. Mas apenas seguiu o manual do dirigente brasileiro: contratava e demitia sem convicção, acumulava dívidas, mirava na ansiedade de vencer a qualquer custo em vez de reconstruir de forma sólida. O símbolo? A chegada do técnico Doriva para “vencer o Santos” na Copa do Brasil 2015, que durou apenas sete jogos. A gestão de Leco terminou em 2020 com um déficit de R$ 129,6 milhões e uma dívida superior a R$ 600 milhões.

O ciclo que se repete: Casares, Crespo e a ilusão de mudança

A promessa que virou velho embrulho

Em meio a esse desgaste, revolta e desejo por renovação, surgiu Julio Casares. Sua campanha dominava as redes sociais, a comunicação parecia moderna, suas promessas ofereciam ruptura com os velhos dirigentes. O torcedor viu esperança. O time engrenou em campo: Paulistão 2021 contra o Palmeiras terminando um jejum de 16 anos, e Copa do Brasil 2023 com Lucas Moura de volta e Rodrigo Nestor marcando o gol do título. A diz que tudo o que se promete como muito novo é, de certa forma, apenas embalagem para um antigo ainda mais profundo.

O colapso de Casares e o efeito cascata

Em janeiro de 2026, o Conselho Deliberativo aprovou o impeachment de Casares, que renunciou dias depois. Em setembro de 2026, foi expulso do quadro associativo por 224 votos a dois, após acusações de gestão temerária, investigações sobre saques milionários e despesas com o cartão corporativo do clube. Agora enfrenta processo de indenização.

Harry Massis Júnior recebeu um clube sufocado por dívidas, pagamentos atrasados, investigações e forte instabilidade política. Hernán Crespo, o treinador que havia salvado o time do rebaixamento em 2025, sabia bem do cenário. Deixou claro que o clube não teria condições para objetivos maiores em 2026. Uma profecia que se concretizou em exatos seis meses: em 9 de março de 2026, Crespo foi demitido por não admitir brigar contra o rebaixamento. Em 15 de setembro de 2026, Rafinha, diretor de futebol, admitiu que a demissão foi equivocada.

O filme que sempre termina igual

O roteiro conhece bem: o treinador vira o culpado, é demitido quando a situação fica “insustentável”, vem outro, o time melhora, depois cai naquela draga de novo e tudo se repete. O São Paulo repete esse ciclo há mais de uma década, sempre esperando um desfecho diferente. Enquanto tratar uma crise institucional como simples sequência de derrotas, terminará sempre no mesmo lugar: o rebaixamento que foi negado em março e volta a aparecer em setembro.

O que Flamengo e Palmeiras aprenderam que o São Paulo recusa

Agora que olhamos para trás, como mudar o que virá? Como sobreviver na crise quem nunca esteve nela? Como voltar a ser um projeto sólido como era vinte anos atrás? São perguntas sem respostas simples.

Hoje, existem dois exemplos: Flamengo e Palmeiras. O Palmeiras, em 2012, vivia situação idêntica à que o São Paulo enfrenta agora. Ambos compraram a briga e se adaptaram a um novo mundo, no qual um clube sul-americano precisa comprar na baixa e exportar para um Chelsea ou um Aston Villa para ser grande em seu país. Não adianta reclamar: o futebol é esse, está posto. Flamengo e Palmeiras aceitaram. O São Paulo ainda não.

A reconstrução exige aceitar a dor que recusa

O caminho não passa por outra coisa senão pelo futuro. E tudo começa na dor. Muita dor. Muitos clássicos perdidos, campeonatos de luta contra rebaixamento, economia para ter dinheiro depois. Que significa brigar contra o rebaixamento em 2025, em 2026 e possivelmente em 2027. Que o clube precisa se reconstruir como instituição e pagar suas dívidas antes de qualquer coisa. Assim conseguirá fechar no verde para sonhar com um time bom.

Hoje o São Paulo é uma ruína do que era em dezembro de 2005, quando Rogério Ceni defendeu aquele chutaço de Gerrard no Mundial de Clubes. O torcedor e o clube como instituição estão preparados para essa travessia? Porque não existe outro caminho.

Perguntas frequentes

Por que o São Paulo foi eliminado da Copa Sul-Americana?

Empatou 1-1 com o Boca Juniors no Morumbi em 17 de setembro de 2026. O São Paulo foi amplamente dominado, não conseguiu ter posse, foi nervoso e apático. A derrota foi a única chance real de título da temporada.

Quando começou a crise institucional do São Paulo?

Em 2010, com o terceiro mandato de Juvenal Juvêncio, que quebrou o modelo anterior de Marcelo Portugal Gouvêa. Juvenal começou a gastar mais que a capacidade do clube, culminando no famoso "pacotão de Natal" de 2009 com cinco contratações caras sem aval de Muricy Ramalho.

Como Julio Casares terminou sua gestão?

Casares foi impedido em janeiro de 2026 e renunciou dias depois. Em setembro de 2026, foi expulso do quadro associativo por 224 votos a dois por gestão temerária, investigações sobre saques milionários e despesas com cartão corporativo do clube.

Written by
Marina Calábria

Marina Calábria é especialista em mercado da bola, cobrindo negociações, valores de contrato e a movimentação de empresários envolvendo o Tricolor Paulista. Já cobriu janelas de transferência na Europa e no Brasil.