Em resumo
- Harry Massis cobrou em áudio vazado a aprovação urgente do contrato com a Ticketmaster para liberar R$ 140 milhões destinados a pagar dívidas do elenco.
- O acordo oferece R$ 110 milhões como empréstimo (a ser devolvido em cinco anos com juros de CDI + 1,99%) e R$ 30 milhões da gestão do camarote 29A pelos próximos cinco anos.
- O Conselho Deliberativo criou uma comissão de análise com quatro conselheiros que pode atrasar a votação e prejudicar o cronograma de pagamento aos jogadores.
- A Diretoria repudia interferência da NewC, empresa derrotada na concorrência, que propôs uma operação de até R$ 500 milhões envolvendo Lu Arenas.
Um áudio vazado nesta terça-feira coloca em evidência as tensões internas no São Paulo FC em relação à aprovação do contrato de gestão de ingressos com a Ticketmaster. Harry Massis, presidente do clube, alertou conselheiros que, sem a votação imediata do Conselho Deliberativo, não haverá dinheiro para quitar as dívidas acumuladas com o elenco.
Massis cobra aprovação urgente
Em tom incisivo, Massis deixou clara a urgência: “Eu preciso que vocês ajudem a fazer o presidente do CD colocar na pauta para ser votado. Porque se segurar e não for votado, não vamos cumprir nada. Não vai ter dinheiro para pagar nada”. A gravação, confirmada pelo jornal Estadão e por apuração do ge, evidencia a pressão do presidente sobre conselheiros.
O acordo já obteve aprovação unânime do Conselho de Administração do São Paulo em 27 de agosto. Agora aguarda deliberação do Conselho Deliberativo para se tornar efetivo. Segundo Massis, qualquer demora nessa etapa compromete o cronograma de pagamento dos atrasados com os jogadores.
Não é a primeira vez que Massis demonstra preocupação com a saúde financeira do clube. Em maio de 2026, outro áudio vazado mostrava o presidente defendendo a permanência de Roger Machado como técnico justamente porque não tinha recursos para buscar um substituto imediato. O treinador seria demitido dias depois, evidenciando que as restrições orçamentárias eram reais.
Os R$ 140 milhões do acordo com a Ticketmaster
O contrato estrutura uma injeção de R$ 140 milhões de receita ao São Paulo, dividida em duas fontes de receita com cronogramas e formatos diferentes.
A antecipação de R$ 110 milhões como empréstimo
A primeira parcela, de R$ 110 milhões, é estruturada como empréstimo. O clube devolverá esse valor à Ticketmaster no prazo de cinco anos, com taxa de juros equivalente ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário) mais 1,99% ao ano. A empresa, portanto, financia parte da operação com retorno conhecido ao longo de cinco exercícios.
A segunda parcela, de R$ 30 milhões, tem origem diferente: vem da gestão do camarote 29A durante cinco anos. A Ticketmaster pagará esse montante logo após a assinatura do contrato em troca do direito de explorar o espaço em shows, eventos e partidas disputadas no Morumbis.
Reforma do Museu e mudança na gestão de associados
Além dessa receita primária, o acordo inclui R$ 6 milhões destinados especificamente à reforma do Museu São Paulo do clube. A Ticketmaster também assumirá a administração do programa de sócio-torcedor, função que atualmente é exercida pela empresa Feng. Ao reunir sob um mesmo gestor as operações de venda de ingressos e programa de sócio-torcedor, o São Paulo espera reduzir custos operacionais, já que duas empresas diferentes executavam essas tarefas anteriormente, cada uma cobrando suas próprias taxas.
A estrutura de custos estabelecida no contrato prevê taxa de administração de até 10% por ingresso digital e 8% por ingresso físico. Para membros do programa de sócio-torcedor, a taxa será de 8% por associado.
O obstáculo no Conselho Deliberativo
Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo, determinou nesta terça-feira à noite a criação de uma comissão de quatro conselheiros para analisar o contrato antes de sua votação. A comissão será integrada por Daurio Speranzini, Flavio Marques, Daniel Fonseca e Marcel Bonilha, com recomendação de que o parecer seja apresentado “o mais breve possível”, em razão da urgência da matéria.
Para a Diretoria Executiva do São Paulo, essa comissão representa um atraso evitável em um processo que já foi rigorosamente conduzido. O acordo passou por análise de múltiplas áreas do clube ao longo de mais de quatro meses, obtendo aprovação unânime do Conselho de Administração. Segundo a Diretoria, a criação da comissão estabelece “evidente desequilíbrio em sua composição”, já que inclui três integrantes identificados com a oposição e apenas um membro da situação, criando “mais uma etapa que, na prática, retarda a apreciação do contrato”.
A disputa pela gestão de ingressos e o questionamento de uma proposta rival
A empresa NewC, que participou da concorrência para a gestão de ingressos e foi derrotada, questiona o resultado. A NewC apresentou uma proposta alternativa envolvendo a empresa Lu Arenas, presidida por Bruno Balsimelli, que prometia levantar até R$ 500 milhões por meio de uma operação financeira com fundo de investimento imobiliário.
A Diretoria refuta essa proposta alternativa. Segundo nota da Executiva, o material apresentado pela NewC limitava-se a um conjunto de slides descrevendo uma “ideia preliminar envolvendo uma estrutura financeira vinculada ao estádio”. Não se tratava de uma oferta formal, completa e detalhada como exigia o edital.
A Diretoria relata que solicitou por diversas vezes que a NewC apresentasse formalmente a operação de R$ 500 milhões com todos os detalhes necessários. Isso nunca ocorreu. Na nota de repúdio, a Diretoria afirma: “O São Paulo Futebol Clube rejeita a tentativa de apresentar um projeto embrionário como se fosse uma proposta diretamente comparável dentro da mesma concorrência”.
Histórico problemático de Lu Arenas
A Diretoria levanta questões sobre o histórico de Lu Arenas e controvérsias públicas relacionadas à sua atuação. O Governo de Minas Gerais extinguiu a concessão da Arena Independência pela concessionária em razão de descumprimento de obrigações contratuais. Segundo comunicado oficial do próprio governo, a empresa deixou de repassar recursos públicos desde 2015, acumulando uma dívida de aproximadamente R$ 36 milhões.
A participação de Lu Arenas também foi apontada pela área de Compliance do São Paulo como um obstáculo à continuidade das negociações com a proposta da NewC. A Diretoria critica ainda o fato de que representantes da NewC apenas agora passaram a assumir diretamente a comunicação sobre o tema com o Conselho Deliberativo, via envio de e-mails, quando durante o processo de concorrência essa interlocução foi conduzida por intermediários.
A defesa da Ticketmaster e o processo de seleção
A Diretoria defende que a proposta da Ticketmaster, uma das maiores empresas globais do setor de ingressos, atende aos critérios estabelecidos e oferece segurança jurídica ao clube. O acordo contempla investimentos garantidos e tem potencial para ampliar as receitas de bilheteria e do programa de sócio-torcedor, além de melhorar significativamente o serviço oferecido aos são-paulinos.
A concorrência recebeu um total de seis propostas de diferentes empresas ao longo de mais de quatro meses de análise. Nenhum dos participantes questionou as regras do edital durante esse período. A Diretoria afirma que as indagações sobre a condução do processo surgiram somente após a escolha da Ticketmaster, e critica “a tentativa de uma empresa multinacional dinamarquesa de reverter, por meio de pressão política e institucional, o resultado de uma concorrência na qual sua proposta foi amplamente superada”.
A nota finaliza enfatizando que “o patrimônio, a reputação e o futuro do São Paulo Futebol Clube devem estar acima de interesses individuais, empresariais ou circunstanciais”, esperando que os membros do Conselho Deliberativo cumpram sua missão de defender a instituição.
Perguntas frequentes
Quanto o São Paulo receberá do contrato com a Ticketmaster?
R$ 140 milhões de imediato: R$ 110 milhões como empréstimo a ser devolvido em cinco anos com juros de CDI + 1,99%, e R$ 30 milhões da gestão do camarote 29A pelos próximos cinco anos.
Por que Harry Massis é tão urgente na aprovação do contrato?
Massis afirma que sem a votação imediata do Conselho Deliberativo, o São Paulo não terá dinheiro para pagar as dívidas acumuladas com o elenco, como prometido.
Qual é o principal obstáculo para a aprovação do contrato?
O Conselho Deliberativo criou uma comissão de análise com quatro conselheiros para revisar o contrato, o que representa um atraso adicional em um processo que já foi aprovado unanimemente pelo Conselho de Administração.