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Massis solicita arquivamento de representação contra Olten Ayres

Em resumo

  • Harry Massis pediu o arquivamento da representação que havia aberto contra Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo.
  • A investigação da Comissão de Ética concluiu que o parecer do Conselho Consultivo favorável à reforma estatutária não foi resultado de debate coletivo, mas de conversas isoladas e foi redigido por advogado do clube.
  • Olten Ayres foi indiciado por falsidade ideológica, mas o Ministério Público arquivou o inquérito por entender que o documento não tinha potencial para produzir efeitos jurídicos relevantes.
  • Na semana do pedido de Massis, Olten Ayres destituiu dois integrantes da Comissão de Ética, José Edgard Galvão e Fabio Cezar de Souza Azambuja.

Harry Massis, presidente do São Paulo, solicitou ao longo desta semana o arquivamento da representação que havia pessoalmente aberto contra Olten Ayres, presidente do Conselho Deliberativo do clube. A medida encerra — ou ao menos tenta encerrar — uma das linhas de investigação internas mais importantes da instituição, que apurava uma acusação de falsidade ideológica em documentação relacionada a uma proposta significativa de reforma do estatuto social.

A ação estava sob análise pela Comissão de Ética, órgão responsável por investigar violações administrativas e de conduta. O pedido de Massis agora passa para o colegiado deliberar, que deve analisar a solicitação e determinar os próximos passos do procedimento. Cabe aos integrantes da Comissão decidir se aceitam o encerramento ou se mantêm o processo em andamento, independentemente da retração do denunciante original.

A acusação original e o documento questionado

Segundo a denúncia inicial de Massis, Olten Ayres teria forjado um parecer positivo emitido pelo Conselho Consultivo do clube. O documento em questão referia-se a uma proposta de reforma do estatuto apresentada por Julio Casares, então presidente do São Paulo, em 17 de dezembro de 2025.

A proposta continha duas modificações principais no ordenamento legal do clube. A primeira era eliminar o quórum qualificado atualmente exigido para aprovação de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) — hoje, são necessários mais de dois terços dos votos favoráveis para que o assunto avance. A segunda modificação propunha separar administrativamente o futebol da estrutura do clube social, criando divisões distintas.

O parecer do Conselho Consultivo, assinado por José Eduardo Mesquita Pimenta, presidente do órgão, e por Ives Granda da Silva Martins, secretário, afirmava que "esta reforma não é apenas pertinente, mas, sobretudo, vital para a salvaguarda e o crescimento futuro do São Paulo Futebol Clube". O documento foi emitido no mesmo dia da proposta, 17 de dezembro.

A investigação interna e os achados

Como a Comissão de Ética investigou

A Comissão de Ética do São Paulo conduziu uma apuração detalhada sobre a origem e a autenticidade do parecer. Durante o processo, ouviu membros do próprio Conselho Consultivo, buscando verificar se houve de fato uma discussão coletiva sobre o tema antes da emissão do documento favorável.

Os investigadores concluíram que não houve reunião formal nem debate estruturado do Conselho Consultivo sobre aquela reforma estatutária. Apesar disso, o parecer apresentava-se — textualmente — como uma manifestação oficial e coletiva do órgão, sugerindo consenso de seus integrantes.

O depoimento de Ives Granda

Um dos signatários do parecer, o advogado Ives Granda, confessou em correspondência que o texto refletia apenas "conversas isoladas com alguns conselheiros", não uma posição deliberada do colegiado como corpo. Em tom mais crítico, Ives afirmou que a "carta" recomendando aprovação da reforma "terminou não refletindo, exatamente, o tipo de discussão que resultou na referida sugestão".

A autoria do documento

Outro achado significativo: a apuração interna apontou que o parecer havia sido redigido originalmente por um advogado do São Paulo, não pelos membros do Conselho Consultivo como atribuído no documento oficial. Isso representava uma inversão de autoria, pois o texto aparecia como produto do órgão consultivo quando era, na verdade, trabalho de profissional externo ao conselho.

A Comissão de Ética, em seu relatório de conclusões, afirmou encontrar "um eventual falso ideológico" no documento. Segundo a análise do colegiado, "o teor do documento não condiz com a realidade e a lealdade dos fatos", ou seja, a forma como o parecer foi apresentado não correspondia à realidade de como fora construído.

Cronologia detalhada: da proposta ao parecer legislativo

O processo de reforma teve andamento específico. Tudo começou em 17 de dezembro de 2025, quando Julio Casares encaminhou sua proposta ao Conselho Deliberativo. No mesmo dia, Olten Ayres repassou o pedido ao Conselho Consultivo, seguindo o rito formal necessário para discussão de qualquer reforma estatutária.

Também em 17 de dezembro — no mesmo dia, portanto — o Conselho Consultivo emitiu seu relatório favorável. O documento, conforme mencionado, era assinado pelos líderes formais do órgão, Pimenta e Martins.

Posteriormente, a proposta avançou para a Comissão Legislativa do clube. Em 6 de abril, essa comissão elaborou um parecer em sentido contrário, recomendando rejeição da reforma estatutária. Esse parecer negativo foi então encaminhado ao Conselho Deliberativo em 8 de abril, criando um quadro de opiniões divididas entre os órgãos consultivos.

Desdobramentos legais e processuais

Investigação policial e decisão do Ministério Público

Decorrente da investigação interna, Olten Ayres foi indiciado pela Polícia Civil por falsidade ideológica. Porém, o Ministério Público posteriormente arquivou o inquérito criminal, entendendo que não havia tipicidade penal na conduta investigada.

A avaliação do MP foi precisa: o documento, embora possivelmente falso ideologicamente em contexto administrativo interno, não tinha potencial para produzir efeitos jurídicos relevantes no mundo externo. Sem potencial lesivo real sob a lei penal, desaparecia a caracterização do crime sob perspectiva criminal.

Procedimento administrativo no clube

No âmbito administrativo do clube, as consequências processais foram distintas. Olten chegou a se afastar temporariamente do cargo de presidente do Conselho Deliberativo para preparar sua defesa formal. Em junho deste ano, os conselheiros deliberativos votaram sobre seu afastamento prolongado, rejeitando uma suspensão de 120 dias por margem significativa. Apesar dessa rejeição ao afastamento temporário, o processo disciplinar permaneceu ativo, em análise para eventual punição mais ampla que poderia, em tese, incluir sua expulsão do quadro associativo do clube.

Recentes tensões na Comissão de Ética

A solicitação de arquivamento de Massis ocorreu num momento de turbulência dentro da estrutura de governança do clube. Na semana em que Massis fez seu pedido, Olten Ayres destituiu dois integrantes da Comissão de Ética: José Edgard Galvão e Fabio Cezar de Souza Azambuja.

Segundo relatos de opositores de Olten ouvidos pela imprensa especializada, as destituições ocorreram após o vazamento de possíveis posicionamentos contrários dos dois membros em processos envolvendo o próprio presidente do Conselho. Olten, por sua vez, nega qualquer conexão entre as removições e eventuais votos contrários desses dois integrantes em procedimentos que o envolviam.

O padrão é significativo: as destituições ampliaram ainda mais os conflitos visíveis entre figuras-chave da administração tricolor, adicionando uma nova dimensão de complexidade ao quadro político interno.

Contexto mais amplo de tensões

O caso de Olten Ayres contra Massis não representa um episódio isolado. As duas figuras têm histórico de desacordos que atravessam diversos aspectos administrativos e de negociação do clube. Conflitos envolvendo contratos, parcerias comerciais e decisões estratégicas marcaram a relação entre ambos.

A representação sobre falsidade ideológica era apenas uma — embora das mais graves — das múltiplas linhas de tensão entre os dois. O fato de Massis agora pedir seu arquivamento sugere possível mudança de estratégia ou resolução de conflito por vias alternativas.

A Comissão de Ética agora responde pela análise da solicitação de Massis. O colegiado deve deliberar se aceita o encerramento do procedimento ou se mantém a investigação em andamento, apesar da retração do denunciante original. Essa decisão pode ter implicações significativas para a governança e o clima político interno do São Paulo nos próximos meses.

Perguntas frequentes

O que Harry Massis acusou Olten Ayres de fazer?

Massis acusou Olten de ter forjado um parecer positivo do Conselho Consultivo sobre uma proposta de reforma do estatuto do São Paulo apresentada por Julio Casares em dezembro de 2025. A reforma propunha eliminar o quórum qualificado para criação de uma SAF e separar o futebol da estrutura do clube social.

O que a Comissão de Ética descobriu sobre o parecer?

A Comissão de Ética concluiu que o Conselho Consultivo não se reuniu nem debateu formalmente a reforma, apesar do parecer afirmar que sim. O documento foi redigido por um advogado do São Paulo, não pelos membros do órgão como indicava o texto. Um dos signatários, Ives Granda, confirmou que o texto refletia apenas conversas isoladas com alguns conselheiros.

Qual foi a consequência legal do caso?

Olten Ayres foi indiciado pela Polícia Civil por falsidade ideológica, mas o Ministério Público arquivou o inquérito, entendendo que o documento não tinha potencial para produzir efeitos jurídicos relevantes. No âmbito administrativo do clube, o processo permaneceu ativo, analisando uma eventual punição que poderia incluir sua expulsão do quadro associativo.

Written by
Thiago Venâncio

Thiago Venâncio acompanha a base e as categorias de formação do São Paulo, uma das mais tradicionais fábricas de craques do país. Escreve sobre os talentos que despontam em Cotia antes de chegarem ao profissional.