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Júlio Baptista critica desatualização de treinadores brasileiros

Em resumo

  • Baptista comanda a sub-20 do São Paulo com disciplina rigorosa: proíbe celular durante treinos e refeições, veta palavrões e estabelece consequências claras para comportamentos inadequados.
  • O ex-jogador do Real Madrid, Arsenal e Roma critica que treinadores brasileiros perderam espaço ao não se atualizarem tecnicamente, enquanto aponta entendimento deficiente em Neymar.
  • Defende que a seleção não deveria ter abandonado o controle da bola contra a Noruega na Copa do Mundo, e prefere um futebol de posse, coesão e sufocamento do adversário.

Aos 44 anos, Júlio Baptista comanda a equipe sub-20 do São Paulo com uma filosofia que mistura rigor disciplinar e formação técnica. O ex-meio-campista e centroavante, que passou por Real Madrid, Arsenal, Roma e Sevilla durante sua carreira de jogador, faz questão de deixar clara sua visão sobre o futebol brasileiro contemporâneo e a necessidade de adaptação constante em um esporte que, na sua avaliação, perdeu a dinâmica de inovação nos últimos anos.

De Madrid a São Paulo: a formação de um treinador

Uma carreira pelo mundo

Baptista jogou em nove clubes diferentes ao longo de sua carreira, conquistando títulos relevantes em cada estação. No Brasil, venceu o Torneio Rio-São Paulo em 2001 e o Supercampeonato Paulista em 2002. Na Espanha, onde passa boa parte de sua história, conquistou o Campeonato Espanhol em 2007-08 pelo Sevilla e marcou presença também em Real Madrid e Roma. Pela seleção brasileira, acumulou 48 jogos e dois bicampeonatos: Copa das Confederações em 2005 e 2009, além de Copa América em 2004 e 2007.

A transição para técnico via Valladolid

Antes de chegar ao São Paulo, Baptista passou cinco anos no Valladolid B, onde descreveu sua atuação como “uma grandíssima aprendizagem”. Foi nesse período que começou a estruturar sua identidade como treinador. Além da experiência prática, completou o curso UEFA Pro na Espanha, que considera um dos melhores programas de formação disponíveis. Seu aprendizado, portanto, combinou tanto a vivência no dia a dia — “o dia a dia te molda, ele te ajuda” — quanto a formação acadêmica estruturada.

Disciplina e educação: o método Baptista na base

Celular, palavrões e limites claros

Ao chegar ao São Paulo, Baptista logo identificou comportamentos que considerava prejudiciais ao desenvolvimento dos jogadores. A proibição do celular foi uma das medidas mais radicais. O dispositivo foi banido durante café da manhã, almoço, jantar em viagens, preleção e horários de entrada no campo de treinamento. Inicialmente, gerou resistência dos atletas — “tinha jogador que esquecia, colocava o telefone por aqui no calção, entrava com ele”. A resposta de Baptista foi inequívoca: qualquer jogador flagrado com o aparelho não treinaria.

Sobre os palavrões durante o treinamento, Baptista argumenta que a prática é contraproducente. “Não adianta nada um jogador pegar e xingar o outro, não está ajudando e nem orientando o companheiro. Eu oriento e, se eu tiver que dar uma bronca, dou uma bronca como companheiro.” A distinção que faz é importante: corrigir diferencia-se de desabafar. Um treina, o outro apenas descarrega tensão.

Educação comportamental versus educação técnica

Baptista não separa a formação do jogador em compartimentos estanques. Sua observação sobre jogadores brasileiros versus europeus aponta uma diferença que vai além do tático. Os jovens europeus, segundo ele, trazem “um pouco mais de educação”. No caso dos brasileiros, viu necessidade de “ajustar” — tanto em comportamento quanto em compreensão de normas e limites. Impôs regras e deixou clara a consequência do descumprimento: quem não jogar não viaja; quem chegar atrasado no dia anterior ao jogo fica fora.

O objetivo, conforme explica, não é punição pela punição. É criar “consciência” no jogador sobre a importância de suas escolhas. “O jogador está sempre te testando. E quando você realmente consegue colocar limites, o jogador fala: ‘opa, é até aqui, se eu passar daqui eu tenho um problema, eu não jogo’.”

O celular como sintoma maior

A proibição do celular ganhou contornos pedagógicos ainda mais amplos. Baptista observou que jogadores usavam o aparelho minutos antes do aquecimento e depois enfrentavam dificuldades de concentração. “Se você está com o telefone 20 minutos antes do treinamento, quando você chega lá, não vai ter a atenção requerida.” Sua mensagem aos jogadores foi direta: “Se vocês querem realmente chegar na profissão de futebol, guardem o telefone, pegue somente quando terminarem de almoçar, quando forem para o seu quarto. Aqui são quatro horas, cinco horas que a gente fica junto, esse horário, esse período dediquem a nós.”

Group of kids enjoying a lively game of soccer in a Rio de Janeiro neighborhood.

O diagnóstico do futebol brasileiro

Treinadores que não se atualizaram

Baptista aponta uma questão estrutural no comando do futebol brasileiro: “Eu acho que o treinador brasileiro perdeu espaço a partir do momento que não se atualizou.” Embora meça as palavras para evitar polêmicas — como ele próprio admite — a crítica sugere que a classe de treinadores brasileiros não acompanhou as transformações do esporte em âmbito global. Sua própria formação na Espanha, através do curso UEFA Pro, reflete essa preocupação com a educação continuada.

O entendimento que faltou a Neymar

Baptista apontou uma “falta de entendimento que prejudicou a carreira de Neymar”, sem detalhar especificamente qual foi esse entendimento. O contexto de sua fala sugere uma questão conceitual sobre como a carreira deve ser conduzida — possivelmente relacionada à necessidade de equilíbrio entre visibilidade mediática e desenvolvimento técnico constante, temas aos quais retorna ao discutir jovens expostos demais nas redes sociais.

A postura errada contra a Noruega

Baptista criticou a atitude brasileira na eliminação para a Noruega na última Copa do Mundo. “A gente não pode abdicar nunca de ter a bola, de sufocar o rival, de querer a todo momento fazer gol.” A crítica não é sobre o resultado em si, mas sobre o abandono de princípios. Para Baptista, há certos postulados do futebol que não devem ser negociados, independentemente das circunstâncias.

Os mestres que moldaram Baptista

As mudanças de posição que definiram trajetória

Baptista dá crédito especial a dois treinadores que o reposicionaram em momentos críticos. Primeiro, o Pita, aqui no Brasil. Quando Baptista “perdeu um pouco de espaço no São Paulo” e “até estava para ser mandado embora”, o Pita mudou sua posição e “daí comecei a voltar, a progredir e comecei a ser titular de novo”. Depois, Joaquín Caparrós, no Sevilla, que o reformulou novamente como meia. “Acho que isso é muito importante, quando o treinador consegue visualizar no jogador uma coisa que é necessidade e fazer com que esse jogador consiga dar alguma coisa a mais.”

Oswaldo, Vadão, Levir, Wenger e Dunga

No Brasil, trabalhou com Oswaldo de Oliveira, Vadão — já falecido — e Levir Culpi. Internacionalmente, conheceu Arsène Wenger na Arsenal, Manuel Pellegrini e Dunga na seleção. Baptista deixa claro que não quer ser cópia de nenhum deles. “Não quero ser como um ou como outro, eu quero ter a minha característica, mas claro, você leva certas coisas que o Dunga acabou fazendo que eu acho que me identifico, ou que o Arsène fazia e que me identifico.”

O futebol de controle: a herança espanhola

Baptista herdou da escola espanhola uma preferência clara pelo jogo ofensivo e controlado. “Por vir da escola espanhola, de ter a posse de bola, de não deixar o rival jogar, eu gosto de jogar bem alto da minha área, gosto de ter o controle do jogo.” O controle, na sua visão, não é apenas filosófico. Traz vantagens práticas: melhor compreensão entre os jogadores, maior coesão, menos desgaste físico e mental.

Um time que controla o jogo consegue “fazer várias facetas”, pode transitar entre diferentes modos de jogar e, quando necessário, alterar o padrão sem perder a estrutura. “Viajar dentro do controle do jogo dá mais possibilidades, um time muito mais coeso consegue fazer várias facetas.” O lado mental também entra na equação. Baptista nota algo que “muitas vezes a gente não pensa nisso quando é jogador, mas quando você passa para o outro lado, de treinador, faz diferença: o lado mental é muito importante.”

Perguntas frequentes

Qual é a filosofia de liderança de Júlio Baptista com a base do São Paulo?

Baptista se define como um técnico "situacional" que adapta sua postura conforme a necessidade, mas reconhece ter uma abordagem disciplinadora. Proibiu o uso de celular durante refeições, preleções e treinos, eliminou palavrões do dia a dia e criou um sistema de consequências — não jogar, não viajar — para reforçar limites e consciência nos jogadores.

O que Baptista critica sobre o futebol brasileiro?

O treinador aponta que "o treinador brasileiro perdeu espaço a partir do momento que não se atualizou". Criticou também a postura da seleção na eliminação contra a Noruega na Copa do Mundo, dizendo que "a gente não pode abdicar nunca de ter a bola, de sufocar o rival". Identificou ainda uma "falta de entendimento" que prejudicou a carreira de Neymar.

Qual é o estilo de jogo que Baptista prefere implementar?

Vindo da escola espanhola, Baptista gosta de jogar com controle de posse de bola, mantendo o jogo próximo à sua área defensiva e sufocando o adversário. Acredita que o controle permite melhor compreensão entre jogadores, maior coesão tática e menor desgaste físico e mental em comparação a um estilo transicionista.

Written by
Ricardo Bittencourt

Ricardo Bittencourt cobre o São Paulo FC há mais de quinze anos, com foco em bastidores do clube e decisões da diretoria. Acompanha de perto o dia a dia do CT da Barra Funda e as movimentações que antecedem cada janela de transferências.