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Hernanes critica indústria do futebol e alerta sobre falta de craques

Em resumo

  • Hernanes retorna ao futebol como supervisor de categorias de base na Itália após sete anos empreendendo com restaurante e produção de vinha
  • O ex-meia critica a transformação do futebol em indústria que prioriza ganho físico rápido sobre desenvolvimento técnico e intelectual dos jogadores
  • Hernanes aponta a falta de passagem pelo futsal como fator crítico para a escassez de bons meio-campistas criadores no Brasil
  • Não cogita retorno ao São Paulo por enquanto, mas mantém admiração profunda pela base tricolor que o formou entre os 16 e 20 anos

Após sete anos dedicado a outras atividades fora dos campos, Hernanes retorna ao universo do futebol como supervisor das categorias de base do ASD Sale, clube italiano. Durante breve passagem pelo Brasil, o ex-meia, que completou 41 anos no dia 29 de maio, concedeu entrevista ao Abre Aspas na qual analisou questões que vão desde a formação de jogadores até a realidade dos empreendimentos que tocou na Itália, onde também se dedicou à produção de vinhos.

O retorno acontece após período de reflexão. Hernanes cursou as licenças B e A na Europa e definiu começar pela base, um ambiente onde acredita ser possível estimular realmente a evolução dos atletas, diferente do futebol profissional onde as margens para desenvolvimento tendem a ser mais reduzidas.

O que o futebol não é mais

A transição para o empreendedorismo não foi simples. Hernanes descobriu que administrar um restaurante e produzir vinho envolviam desafios similares aos do futebol, contrapondo sua inicial expectativa de encontrar uma rotina mais tranquila. A realidade o mostrou que toda atividade profissional carrega suas próprias tensões, uma lição que o fez reconhecer que, caso fosse lidar com pressão novamente, preferia que fosse dentro dos campos.

Questionado sobre como enxerga o futebol brasileiro atual, Hernanes não poupa críticas. Segundo sua avaliação, o Brasil sofre com carência de craques e padece de um modelo que transformou o esporte em negócio puro, perdendo características naturais do desenvolvimento de talentos. Ele não vislumbra retorno iminente ao São Paulo, clube que considera sua casa futebolística. Sobre a instituição tricolor, mantém uma visão clara: existe muita desordem e situações que não inspiram seu retorno neste momento.

A comparação incômoda

A metáfora da produção em massa

Para explicar a transformação do futebol em indústria, Hernanes recorre a uma analogia que choca. Ele estabelece paralelo entre o que acontece com o frango de granja, injetado de anabolizante para crescimento acelerado e abate rápido, e a dinâmica atual de formação de jogadores. Quando o futebol se tornou business, o processo natural de desenvolvimento foi substituído por otimização de ganhos físicos em curto prazo, sacrificando atributos técnicos e intelectuais que caracterizavam a escola brasileira.

Quem perde neste modelo

O prejudicado direto são os potenciais meio-campistas. Esses jogadores exigem intelecto além de força, capacidade de leitura de jogo e criatividade, atributos que não geram resultado imediato como um bom ganho de massa muscular. Na Europa, dirigentes priorizam o jogador box-to-box, aquele que marca e chega ao ataque. O atleta que, ainda desenvolvendo fisicamente, prometeria ser um meia cerebral e pensador do jogo, fica de fora das prioridades da indústria.

Hernanes reconhece que teria sido vítima desse sistema se a indústria moderna o encontrasse antes dos 16 anos. Era fraco e lento naquela época, características que o teriam desqualificado nos critérios atuais. O São Paulo, porém, viu além dos números imediatos e permitiu que evoluísse.

Consequências visíveis

A falta de bons meio-campistas no futebol brasileiro não é coincidência. É resultado direto de décadas de priorização do físico mensurável sobre a inteligência tática e a sensibilidade com a bola, elementos que levam tempo para aparecer e que não cabem em cronogramas de lucro rápido.

Diverse group engaging in beach soccer under palm trees, creating a lively summer atmosphere.

O futsal como diferencial perdido

Hernanes identifica o futsal como componente crítico na formação de talentos brasileiros. A modalidade de espaço reduzido, com dinâmica quatro contra quatro, força o jogador a manter contato constante com a bola, desenvolvendo o que ele chama de amor pela bola, distinto simplesmente de jogar futebol.

A observação é precisa. Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Ronaldo Fenômeno todos passaram pelo futsal antes de conquistarem o mundo nos gramados. Esse transitório criava alicerce técnico sólido. Hoje, crianças com oito, nove ou dez anos pulam direto para o futebol de campo, perdendo a escola de toque e movimentação que apenas o futsal oferece.

Na Europa, nunca houve essa tradição de futsal como preparação. O que diferenciava o Brasil era justamente esse conjunto: jogar nas ruas, passar pelo futsal e depois evoluir para o campo. Sem essa sequência, o desenvolvimento técnico sofre impacto que nenhuma academia moderna consegue compensar.

A base do São Paulo que o moldou

Quando reflete sobre a própria trajetória, Hernanes credita ao São Paulo oportunidades que o formaram além do aspecto técnico. Entrou na base tricolor aos 16 anos, sendo mais jovem que a maioria dos colegas do sub-17 em que treinava, fisicamente menos desenvolvido e ainda em crescimento. O clube permitiu essa estrutura gradual.

A instituição realizava intercâmbios internacionais, trazendo mexicanos, japoneses, americanos, armênios para o CT. Foi num desses períodos que conheceu o Mkhitaryan, meia que depois atuaria na Inter de Milão. Além disso, o São Paulo investiu na educação dos atletas, montando uma escola dentro do centro de treinamento e posteriormente providenciando transporte para que continuasse frequentando faculdade, saindo de Barueri às 6 horas para chegar na Lapa às 7.

Para Hernanes, a diferença foi estrutural. Passou antes por Corinthians, Santos, Portuguesa e Juventus da Mooca, sendo reprovado em todos. O São Paulo oferecia categorias sub-16 e sub-17 separadas, respeitando fases de desenvolvimento biológico. Essa abordagem permitiu que um meia tecnicamente talentoso, mas ainda franzino e magro, amadurecesse sem ser descartado por comparação com colegas mais físicos.

Do métodos pessoais ao ensino

Durante sua carreira como jogador, Hernanes desenvolveu métodos próprios. Começou como destro e, através de treino diário e disciplina, adquiriu domínio da perna esquerda e escrita com mão esquerda no mesmo nível. Criou maneiras de aprender idiomas usando técnicas que inventava, expandindo seu repertório para inglês, italiano, francês e espanhol.

Reconhece que naquela época era excessivamente focado, dedicando-se a leitura durante refeições em vez de interagir com colegas de time, comportamento que apenas no final da carreira moderou. Agora, em retorno ao cotidiano futebolístico que começa em setembro, planeja resgatar aquela disciplina de crescimento e aprendizado, mas incorporando a dimensão social que negligenciou.

Já escreve análises para comentários na DAZN na Itália, um espaço onde desenvolveu estilo próprio conectando vinho, agronegócio e tática. Sua última publicação explorava a relação entre vinha e grande área, diferenças entre floresta e vinhedo para analogizar conceitos futebolísticos. Está produzindo muito, apagando mais de mil vídeos acumulados para organizar conteúdo metodológico que quer sistematizar para ensino.

O foco em evolução de talentos

Hernanes é claro quanto ao seu objetivo agora: ajudar jogadores a evoluírem. O futebol profissional oferece menos margem para esse desenvolvimento, mas ainda há situações onde atletas realmente progridem. A base, porém, oferece terreno fértil para plantios de longo prazo.

A diferença entre jogar futebol e jogar bola resume sua filosofia. Muitos jogadores atuais dominam conhecimento tático e técnico porque estão mais acessíveis e à vista, mas tocam na bola menos vezes durante uma partida. O tocar na bola é o que desenvolve capacidades e habilidades técnicas que o futebol brasileiro precisa restaurar. Para isso, propõe encurtar os espaços de treino para que o atleta em desenvolvimento toque na bola mais frequentemente, recriando em campo os estímulos que o futsal naturalmente proporciona.

Fonte: ge > são paulo

Perguntas frequentes

Por que Hernanes deixou o futebol por sete anos?

Planejava jogar até os 33 ou 35 anos e depois fazer outras coisas. Após a aposentadoria, dedicou-se a administrar um restaurante e produzir vinhos na Itália. Depois de um tempo empreendendo, reconheceu que toda atividade profissional tem suas dores de cabeça, e decidiu voltar ao futebol onde pelo menos essas pressões são do seu gosto.

O que Hernanes entende por 'indústria do futebol'?

Ele compara o modelo atual ao de uma granja industrial onde animais recebem anabolizantes para crescimento rápido e abate. No futebol, a indústria prioriza ganho físico imediato, descartando jogadores que seriam excelentes meio-campistas pensadores mas são fisicamente fracos no começo. Isso sacrifica o desenvolvimento natural que levaria esses talentos a amadurecerem em atletas inteligentes e técnicos.

Qual foi o papel do futsal na formação de Hernanes?

Hernanes saiu do futsal para o futebol de campo quando chegou ao São Paulo. O futsal em espaço reduzido desenvolveu o que ele chama de 'amor pela bola' e contato frequente com o objeto do jogo. Ele argumenta que essa fase preparatória desapareceu da formação brasileira moderna, contribuindo para diminuir a técnica e habilidade dos jogadores atuais comparados às gerações passadas.

Written by
Júlia Matarazzo

Júlia Matarazzo cobre a torcida e a cultura tricolor — organizadas, clássicos contra Corinthians, Palmeiras e Santos, e o que significa ser são-paulino dentro e fora do Morumbi.