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Clubes advertem que proibição de apostas pode “matar” o futebol brasileiro

Em resumo

  • Palmeiras, Santos, São Paulo e outros grandes clubes publicaram manifesto contra restrições às apostas reguladas.
  • As bets investem mais de R$ 1 bilhão anuais em patrocínios aos clubes da Série A brasileira, sustentando também futebol feminino e programas de formação.
  • Dirigentes alertam que uma proibição abrirá espaço para o mercado ilegal e pode levar muitos clubes à insolvência.

Grandes clubes do Brasil se posicionam contra possíveis restrições às apostas reguladas, lançando um alerta sobre as consequências econômicas para o setor. O documento, divulgado na quinta-feira à noite, reúne assinaturas de Palmeiras, Santos, São Paulo, Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco e Cruzeiro, com apoio da Federação Paulista de Futebol e da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro.

A ação ocorre em resposta à iminência de o Governo Federal lançar uma Medida Provisória para proibir jogos de cassino on-line. Segundo apuração, o texto já está pronto e aprovado, com previsão de publicação até a próxima terça-feira. Há, porém, uma discussão interna na administração federal sobre a abrangência da restrição: uma ala tenta convencer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a proibir apenas determinados jogos, como o do Tigrinho, em vez de banir todo o segmento de cassino virtual.

O manifesto argumenta que a receita proveniente de operadoras de apostas virou um pilar financeiro do esporte. As empresas autorizadas a operarem no Brasil investem mais de R$ 1 bilhão anuais em patrocínios somente aos times da Série A do Brasileirão. O documento realça que esse investimento transborda para além dos grandes nomes.

Uma rede que sustenta todo o futebol

O alcance dos recursos não se limita aos clubes com maior projeção nacional e internacional. Equipes de menor expressão, times que disputam as divisões de acesso e competições com visibilidade comercial reduzida dependem desses patrocínios. Para muitas agremiações do interior do país, não há outra fonte de receita capaz de substituir imediatamente o que as operadoras proporcionam.

Essas receitas financiam estruturas administrativas, centros de treinamento, folhas de profissionais e iniciativas que de outro modo seriam inviáveis economicamente. O futebol feminino e os programas de desenvolvimento de novos talentos ocupam posição privilegiada nessa lista: são os primeiros departamentos afetados quando há queda abrupta de receita.

O marco regulatório em questão

A Medida Provisória em questão revogaria o inciso dois do artigo terceiro da Lei 14.790 de 2023, que regulamentou o mercado de apostas no Brasil. Esse inciso foi o que incluiu os jogos virtuais entre as modalidades de aposta de quota fixa. É importante notar que a MP não proibiria as apostas esportivas — apenas os jogos de cassino on-line, que, paradoxalmente, representam a maior fatia das receitas das operadoras.

O temor da insolvência e do desequilíbrio

A possibilidade de mudanças nas regras disparou alertas entre dirigentes. Desde a semana anterior ao manifesto, cartolas estiveram reunidos com o objetivo de estruturar uma resposta coordenada. Federações estaduais articularam-se com seus clubes filiados para avaliar o cenário, que inclui ainda um projeto de lei em tramitação na Câmara de São Paulo para restringir publicidade de operadoras na cidade.

Os dirigentes advertem que uma mudança abrupta nas regras reduziria drasticamente a capacidade de investimento dos clubes. Contratos já assinados, planos plurianuais e compromissos financeiros foram estruturados sob o marco regulatório estabelecido pelo Estado. Uma ruptura causaria desequilíbrios significativos — tanto internamente, entre os próprios clubes brasileiros, quanto no contexto internacional, afetando a competitividade das equipes sul-americanas.

O caminho que o Brasil escolheu

A realidade é que, enquanto o Brasil organizava esse mercado através da regulamentação, as apostas já se movimentavam ilegalmente, movimentando bilhões de reais. A criação de um ambiente regulado visava justamente a responder a essa demanda preexistente. Empresas foram autorizadas, passaram a recolher impostos, assumiram obrigações legais de proteção ao consumidor, bloqueio de acesso a menores, prevenção a práticas abusivas, e combate à lavagem de dinheiro e manipulação de competições.

A consequência mais visível dessa regulamentação foi o Brasil deixar de ocupar a liderança no ranking internacional de casos de manipulação de competições. Antes de o mercado ser regularizado, o país enfrentava números alarmantes nesse quesito.

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O apelo ao mercado ilegal

A tese central do manifesto é que proibir não é sinônimo de extinguir. Se o mercado regulado for inviabilizado, os apostadores não desistirão de fazer suas apostas — migrarão integralmente para plataformas clandestinas. Essas operadoras ilegais não recolhem impostos, não respeitam limites de aposta, não oferecem mecanismos de proteção ao consumidor e não colaboram com as autoridades no combate à fraude.

Assim, em vez de resolver o problema social das apostas, uma proibição abriria a porta ainda mais amplamente para o setor ilícito. O futebol deixaria de arrecadar receita tributária que poderia ser convertida em investimento, e a proteção ao apostador desapareceria por completo.

Reconhecimento dos desafios

Os clubes não negam os desafios que a expansão das apostas traz. Reconhecem que o impacto social, especialmente sobre as populações mais vulneráveis, demanda atenção permanente do Poder Público, das próprias empresas e de todos os setores envolvidos. Por isso, defendem que é fundamental aprimorar as medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção, reduzindo riscos e garantindo um mercado mais responsável.

O que os dirigentes pedem

O apelo final é direto: combater a ilegalidade, fortalecer a fiscalização e aperfeiçoar os mecanismos de proteção, sem desmantelar um mercado que foi regulamentado pelo próprio Estado através do Congresso Nacional. Os clubes se colocam à disposição do Governo Federal, do Congresso, das autoridades estaduais e municipais para colaborar em mecanismos mais eficientes de educação e conscientização sobre os riscos das apostas.

O tom do manifesto encerra com uma mensagem clara: “O torcedor não pode pagar essa conta. Se acabar o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é que acaba.” É um aviso sobre o que ocorreria se, em vez de aperfeiçoar a regulamentação existente, o governo optasse por sua proibição.

A insegurança jurídica e profissional decorrente de uma reversão do marco regulatório seria devastadora. Muitos clubes enfrentariam insolvência. Profissionais que planejaram suas carreiras e investimentos sob regras estáveis veriam tudo em colapso. Centros de treinamento, projetos sociais e estruturas de formação de atletas ficariam sem sustentação.

Enquanto o debate segue, a expectativa é pela decisão que o governo tomará até terça-feira sobre a publicação — ou não — da Medida Provisória.

Perguntas frequentes

Por que os clubes defendem as apostas reguladas?

Porque as bets representam uma das principais fontes de receita para o futebol, especialmente para clubes pequenos e departamentos como futebol feminino e formação de talentos que não geram receita suficiente por si mesmos.

O que é a Medida Provisória que o governo pretende publicar?

Um texto que revogaria o inciso dois do artigo terceiro da Lei 14.790 de 2023, proibindo especificamente os jogos de cassino on-line, que representam a maior parte das receitas das operadoras, mas não as apostas esportivas.

Qual é o principal argumento dos clubes sobre o efeito da proibição?

Que proibir não é extinguir: os apostadores migrariam para plataformas clandestinas que não pagam impostos, não protegem consumidores e não colaboram com as autoridades no combate à fraude.

Written by
Thiago Venâncio

Thiago Venâncio acompanha a base e as categorias de formação do São Paulo, uma das mais tradicionais fábricas de craques do país. Escreve sobre os talentos que despontam em Cotia antes de chegarem ao profissional.