Em resumo
- A rotina de retiradas em dinheiro vivo ocorria com regularidade impressionante, representando um padrão claro de movimentação de recursos.
- A Polícia Civil investiga R$ 1,5 milhão em depósitos de dinheiro em espécie na conta pessoal de Casares entre janeiro de 2023 e maio de 2025.
- A investigação também envolve Mara Casares, ex-esposa do ex-presidente e diretora licenciada do clube, suspeita de se beneficiar de um esquema envolvendo venda clandestina de camarotes.
- As revelações dessas irregularidades financeiras abriram caminho para uma potencial votação de impeachment de Julio Casares no Conselho Deliberativo do São Paulo FC.
Dois depoentes ouvidos pela Polícia Civil e pelo Ministério Público confirmaram que o ex-presidente Julio Casares retirava aproximadamente R$ 100 mil em espécie do São Paulo FC todos os meses, com ocorrências específicas variando entre R$ 109 mil e R$ 118 mil. O dinheiro era transportado em envelopes dentro de pastas de polionda, uma prática que se repetiu mensalmente até o final de sua gestão em 2025.
Saques sistemáticos e justificativas questionadas
A rotina de retiradas em dinheiro vivo ocorria com regularidade impressionante, representando um padrão claro de movimentação de recursos. Os recibos que acompanhavam essas operações justificavam os fundos como destinados a “ações promocionais”, um detalhe central na investigação sobre possível desvio de recursos do clube.
O contraste entre o salário oficial de Casares como presidente — R$ 27.505,32 mensais, totalizando R$ 617.506,90 no período analisado — e o movimento total de sua conta pessoal revela a magnitude do problema. Entre 2023 e 2025, a conta do ex-presidente movimentou R$ 3.197.499,41, uma média de R$ 110 mil por mês. Isso significa que seu salário contratado representava apenas 19,3% de todo o movimento financeiro em sua conta, levantando questionamentos sobre a origem dos milhões depositados durante esse período.
Investigação sobre depósitos fracionados e esquema de “smurfing”
A Polícia Civil investiga R$ 1,5 milhão em depósitos de dinheiro em espécie na conta pessoal de Casares entre janeiro de 2023 e maio de 2025. Esses depósitos foram realizados em pequenas quantias — por exemplo, R$ 49 mil — especificamente R$ 1 mil abaixo do limite automático de comunicação ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), sugerindo conhecimento das normas de controle.
Essa prática, conhecida como “smurfing”, é utilizada para contornar mecanismos de fiscalização financeira. Os R$ 1,5 milhão representam 47% de toda a renda de Casares durante o período analisado, transformando os depósitos em espécie em sua principal fonte de recursos, em vez de seu salário oficial. Um relatório separado do Coaf indica que R$ 11 milhões foram sacados em dinheiro das contas do São Paulo FC entre janeiro de 2021 e novembro de 2025, divididos em 35 operações. Embora a investigação não tenha estabelecido correlação direta entre essas retiradas do clube e os depósitos na conta pessoal do ex-presidente, o volume substancial de dinheiro saindo do clube sem rastros digitais claros é central nas alegações de má gestão financeira e possível apropriação indébita.
Defesa de Casares e contexto operacional do clube
Em nota enviada por sua defesa, Julio Casares afirmou que “tudo está regularmente resguardado na Contabilidade do Clube” e argumentou que os movimentos em espécie referem-se a “no mínimo 172 jogos do SPFC em diversas competições”. Segundo sua versão, o dinheiro foi alocado para despesas operacionais relacionadas aos dias de jogo, incluindo serviços de arbitragem pagos em dinheiro vivo, e está totalmente documentado nos livros contábeis da instituição.
Durante a presidência de Casares entre 2021 e 2025, o São Paulo assinou 48 jogadores com investimento estimado de R$ 229 milhões. Os cinco reforços mais caros foram Galoppo (R$ 34,8 milhões), Ferraresi (R$ 23,4 milhões), André Silva (R$ 23,1 milhões) e Rigoni (R$ 22,6 milhões). Esse gasto massivo em contratações coincide precisamente com o período das retiradas de R$ 11 milhões em espécie, levantando críticas sobre a saúde financeira do clube comprometida por operações opacas enquanto realizava transferências de alto valor.
Ampliação da investigação e envolvimento de terceiros
A investigação também envolve Mara Casares, ex-esposa do ex-presidente e diretora licenciada do clube, suspeita de se beneficiar de um esquema envolvendo venda clandestina de camarotes. O envolvimento de uma funcionária de alto escalão sugere que o escândalo de saques em espécie pode ser parte de uma rede mais ampla de irregularidades financeiras dentro da administração do São Paulo FC, não apenas um ato isolado do presidente.
Adiciona-se a essa complexidade o fato de que o filho de Casares mantinha contrato com a Osten (Austin Group) envolvendo o São Paulo FC, com veículos entregues em abril de 2025 e devolvidos em dezembro de 2025. O filho alegou não possuir responsabilidade gerencial sobre esses ativos, que estariam sob administração exclusiva do clube, acrescentando outra camada de conflito de interesses potencial.
Contexto histórico e precedentes administrativos
As revelações dessas irregularidades financeiras abriram caminho para uma potencial votação de impeachment de Julio Casares no Conselho Deliberativo do São Paulo FC. A erosão de confiança na liderança de Casares reflete-se nas questões levantadas por conselheiros sobre a falta de clareza nos relatórios financeiros do clube, particularmente quanto aos R$ 7 milhões não explicados mencionados em reunião recente do conselho.
Esse episódio marca um momento crítico na história administrativa recente do São Paulo, onde práticas de governança corporativa e transparência financeira tornam-se questões centrais para a viabilidade institucional do clube. A magnitude dos valores envolvidos e a sofisticação aparente das operações sugerem um desvio significativo dos padrões esperados de administração de uma instituição desportiva de primeira grandeza.
Próximos passos e acompanhamento necessário
A Polícia Civil continua investigando se existe correlação direta entre os R$ 11 milhões retirados do clube e os R$ 1,5 milhão depositados na conta pessoal de Casares. Embora essa conexão ainda não tenha sido estabelecida formalmente, o padrão de saques em espécie do clube e os depósitos fracionados na conta do ex-presidente permanecem como elementos centrais na investigação sobre possível desvio de recursos.
O resultado dessa investigação definirá não apenas o futuro administrativo de Casares, mas também estabelecerá precedentes sobre fiscalização financeira e prestação de contas dentro do São Paulo FC. Os próximos desdobramentos no Conselho Deliberativo e nas investigações policiais determinarão se medidas institucionais significativas serão implementadas para fortalecer controles internos e transparência nas operações do clube.