Carregando...

Casares renúncia, mas Comissão de Ética segue investigação no São Paulo

Em resumo

  • Casares renunciou ao Conselho Deliberativo e ao quadro de sócios, mas a Comissão de Ética recusou encerrar as investigações contra o ex-presidente.
  • A defesa invocou o artigo 5º da Constituição Federal, que proíbe compelir alguém a permanecer associado, mas o Estatuto do São Paulo prevaleceu.
  • O ex-presidente é investigado também pela Polícia Civil e Ministério Público por possível lavagem de capitais e exploração clandestina de camarote.
  • A tendência é a Comissão de Ética recomendar expulsão de Casares e devolução de valores identificados pelo Conselho Fiscal como gastos irregulares.

Julio Casares entregou seu cargo de membro do Conselho Deliberativo do São Paulo na quarta-feira e formalizou a entrega de seu título de sócio do clube. Na quinta-feira seguinte, apresentou um pedido formal para o encerramento das investigações que tramitam contra ele na Comissão de Ética da instituição. A comissão rejeitou o pedido imediatamente. O ex-presidente do Tricolor segue sob processo disciplinar que pode resultar em sua expulsão, mesmo tendo abdicado de seus vínculos estatutários com o clube.

A Renúncia e o Vácuo Jurídico

Abandono da sócia e do conselho

Ao deixar o Conselho Deliberativo e abrir mão do título de sócio, Casares buscava fechar uma porta que o mantinha vinculado formalmente à estrutura do São Paulo. A expectativa, aparentemente, era que essa desvinculação automaticamente encerrasse qualquer procedimento que o envolvesse. No entanto, o Estatuto Social da instituição prevê explicitamente o oposto. O documento afirma com clareza: “não será aceito pedido de demissão do Quadro Associativo, quando o Associado for objeto de procedimento administrativo disciplinar, até a conclusão de tal procedimento (…)”.

Essa clausula cria um impasse. O ex-presidente alegava que sua renúncia cancelaria suas obrigações perante o clube, incluindo responder pelo processo em tramitação. Porém, conforme interpretado pela Comissão de Ética, a regra estatutária o mantinha vinculado enquanto durasse a investigação.

A Constituição como escudo

A defesa de Casares, conduzida pelos advogados Bruno Borragine, Daniel Bialski e André Bialski, buscou um caminho diferente. Invocaram o artigo 5º, inciso XX da Constituição Federal brasileira, que determina categoricamente: “ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado”. Esse direito fundamental seria superior ao regulamento interno do clube, argumentavam os advogados.

O raciocínio era lógico: se a Constituição Federal protege o direito de não permanecer em uma associação, então Casares teria todo o direito de deixar o quadro de sócios, independente do estágio em que se encontrasse qualquer investigação interna. Portanto, a Comissão de Ética deveria reconhecer que ele já não era mais vinculado ao clube e encerrar o processo.

A Resposta da Comissão de Ética

Recusa e continuidade

Casares estava agendado para comparecer a uma audiência na Comissão de Ética na quinta-feira, ocasião em que teria a oportunidade de se defender pessoalmente das acusações que pesam sobre ele. Ele optou por não participar do evento. Segundo informações disponíveis, sua ausência significou o encerramento da fase de ouvição de testemunhas e do investigado na comissão.

Apesar da renúncia, da não comparecimento e da argumentação constitucional, a Comissão de Ética recusou o pedido para arquivamento do caso. O processo seguirá seu curso normalmente.

Os próximos passos

A comissão agora se concentra na redação do relatório final, que consolidará os achados da investigação e apresentará suas recomendações. Esse relatório será posteriormente votado pelo Conselho Deliberativo do São Paulo. De acordo com as informações disponíveis, a tendência é que a comissão recomende a expulsão de Casares do clube.

Além da possível expulsão, há recomendação para que Casares devolva valores financeiros. O Conselho Fiscal havia identificado gastos realizados pelo ex-presidente que não guardavam qualquer relação com suas atribuições oficiais no cargo que ocupava. O montante exato não foi divulgado publicamente, mas essas movimentações são parte central da investigação sobre má gestão financeira.

A goalkeeper in action diving to catch a soccer ball during a match in a large stadium.

Investigações Criminais Paralelas

O processo disciplinar interno é apenas uma das frentes que Casares enfrenta. A Polícia Civil abriu investigação sobre possível lavagem de capitais envolvendo sua gestão. O Ministério Público também atua sobre os mesmos fatos. As acusações incluem participação em um esquema de exploração clandestina de um camarote do Morumbis durante shows e eventos musicais realizados no estádio.

Esse esquema veio à luz em dezembro de 2025, quando foi revelado pela imprensa especializada. A divulgação dos fatos precipitou o impeachment de Casares no Conselho Deliberativo, que ocorreu em janeiro de 2026.

Um Mandato de Cinco Anos Encerrado em Turbulência

Período de gestão

Casares presidiu o São Paulo durante cinco anos, de janeiro de 2021 a janeiro de 2026. Seu mandato, que teria continuidade esperada, foi interrompido pelo impeachment decorrente do esquema do camarote.

O impeachment e a renúncia

Após sofrer impeachment no Conselho Deliberativo, Casares renunciou à presidência do clube, evitando que chegasse a termo uma votação em assembleia geral, onde os sócios teriam a chance de confirmar ou refutar a decisão do conselho. Sua saída antecipada não impediu, porém, que os processos disciplinares internos prosseguissem.

O Conflito Entre Estatuto e Constituição

O impasse evidencia uma tensão fundamental no direito associativo brasileiro. De um lado está a Constituição Federal, que garante liberdade de associação. Do outro, está o direito das organizações de manter a integridade de seus processos disciplinares. No caso do São Paulo, a Comissão de Ética entendeu que o regulamento interno prevalece nas questões disciplinares, mesmo diante de garantias constitucionais.

Essa interpretação reflete uma prática comum em instituições: impedir que investigados se desvinculem formalmente enquanto processos estão em curso. A lógica é evitar que alguém escape à responsabilidade por suas ações simplesmente ao sair da organização.

Perspectivas Futuras

Casares segue em condição frágil. A expulsão do São Paulo parece cada vez mais provável, conforme a Comissão de Ética se aproxima de suas conclusões finais. Além disso, as investigações criminais prosseguem, com possibilidade de acusações formais de lavagem de capitais e apropriação indevida de patrimônio do clube.

A estratégia de renúncia não surtiu o efeito esperado. O antigo presidente do Tricolor permanece vinculado ao São Paulo para fins disciplinares e continua respondendo tanto internamente quanto perante a lei pelas ações que praticou durante seu mandato.

Perguntas frequentes

Por que Casares renunciou ao Conselho Deliberativo e ao quadro de sócios?

Casares esperava que ao deixar esses cargos, a Comissão de Ética encerrasse as investigações contra ele, argumentando que a Constituição Federal proíbe compelir alguém a permanecer associado a uma organização.

A Comissão de Ética acatou o argumento de Casares sobre a Constituição?

Não. A Comissão recusou o pedido e mantém o processo em andamento, pois o Estatuto Social do São Paulo expressamente proíbe demissões do quadro de sócios enquanto há procedimento administrativo disciplinar em curso.

Qual é a próxima etapa do processo contra Casares?

A Comissão de Ética está preparando o relatório final que será votado pelo Conselho Deliberativo; a tendência é recomendar a expulsão de Casares e a devolução de valores identificados como gastos irregulares pelo Conselho Fiscal.

Written by
Júlia Matarazzo

Júlia Matarazzo cobre a torcida e a cultura tricolor — organizadas, clássicos contra Corinthians, Palmeiras e Santos, e o que significa ser são-paulino dentro e fora do Morumbi.