Em resumo
- Daniel Corrêa marcou um hat-trick aos 20 anos pelo Botafogo em 2014, mas uma dupla lesão do ligamento cruzado destruiu sua carreira.
- Oito anos após ser assassinado em outubro de 2018, a família de Daniel mantém silêncio, marcada por luto e incompreensão sobre a violência do crime.
- Edison Brittes e três cúmplices foram condenados pela morte de Daniel após uma sequência de eventos que começou numa festa de aniversário.
Em outubro de 2018, enquanto o Brasil vivenciava o processo eleitoral que daria a vitória a Jair Bolsonaro, uma família em Conselheiro Lafaiete, no interior de Minas Gerais, começava um pesadelo que duraria muito mais que aquele mês. Daniel Corrêa Freitas, jogador revelado no Botafogo que havia passado por São Paulo, Coritiba e Ponte Preta, estava emprestado ao São Bento quando foi assassinado no dia 28 de outubro, oito anos atrás.
O brilho e a queda de um meia promissor
Daniel nasceu em Juiz de Fora mas cresceu em Conselheiro Lafaiete, cidade de aproximadamente 140 mil habitantes localizada a cem quilômetros de Belo Horizonte. Começou sua formação no Cruzeiro, um dos clubes que marcou sua infância junto com o Fluminense, time do coração do pai. O meia franzino chegou ao Botafogo já no fim de sua formação com reputação de joia promissora, reconhecido por seus gols e pela velocidade com que aproveitava a bola no pé direito.
Daniel iniciou sua trajetória profissional em 2013 e no ano seguinte se tornou um dos principais nomes do time sob comando de Oswaldo de Oliveira. Seu auge ocorreu em maio de 2014, quando marcou um hat-trick na goleada de 6 a 0 sobre o Criciúma pelo Brasileirão, na quarta rodada da competição. De acordo com o primo Henrique Salmaso, que cresceu ao lado de Daniel em Lafaiete como se fossem irmãos, o jogador era “muito tranquilo, tímido, falava baixo” e não tinha “o estereótipo de jogador tatuado com personalidade forte”.
Após fazer 28 jogos, marcar cinco gols e dar três assistências naquela temporada, Daniel sofreu uma lesão grave no joelho direito durante a Copa do Brasil contra o Ceará em setembro de 2014. Rompeu o ligamento cruzado anterior e nunca mais se recuperou completamente. Em janeiro do ano seguinte, o mesmo ligamento se rompeu novamente quando Daniel subia as escadas de sua casa. A dor crônica se tornou companheira constante: “Velho, eu sinto dor até para deitar”, reclamava para os mais próximos.
O período em São Paulo e a transferência para outros clubes
O São Paulo venceu uma disputa com o Palmeiras e contratou o meia em dezembro de 2014. Sua estreia na camisa tricolor aconteceu apenas em setembro de 2015, num empate sem gols com o Joinville. Ao todo, foram 15 jogos vestindo o uniforme tricolor. O jogador foi emprestado para Coritiba e Ponte Preta nos anos seguintes, seguindo a rotina de poucos minutos em campo, atuações discretas e dores persistentes no joelho. Seu último clube foi o São Bento, onde estava emprestado quando faleceu.
Henrique acredita que “se não tivesse acontecido essa tragédia, provavelmente hoje ele não estaria mais jogando”, pois o primo “já estava um pouco desiludido” com a carreira aos 24 anos.
Os acontecimentos de 27 para 28 de outubro
Daniel treinou na sexta-feira, 26 de outubro, e recebeu os dias 27 e 28 de folga porque não seria relacionado para o jogo do São Bento contra o CRB pela Série B no sábado. A diretoria havia combinado de estender a folga até terça-feira em caso de vitória (o São Bento venceu 1 a 0, gol de Zezinho). O jogador aproveitou para ir a Curitiba rever amigos e participar da festa de 18 anos de Allana Brittes, filha de Edison Luiz Brittes Junior, conhecido como “Juninho Riqueza”.
Na noite do evento, houve consumo intenso de bebidas alcóolicas. Os exames realizados no corpo de Daniel após sua morte apontaram 13 decigramas de álcool por litro de sangue, considerado um nível alto de embriaguez. Pela manhã, Allana decidiu estender as comemorações na residência da família em São José dos Pinhais, a menos de 15 quilômetros de Curitiba. Um pequeno grupo, incluindo Daniel, se dirigiu para o “after”, enquanto o melhor amigo do jogador voltou para casa por precisar trabalhar cedo.
O que ocorreu na casa dos Brittes
Na residência, os convidados ficaram numa área externa. Cristiana Brittes, mãe de Allana, estava muito embriagada e se deitou. Daniel entrou na suíte onde ela dormia e se deitou na cama vestindo apenas camisa e cueca. Ele enviou fotos e um áudio entre risadas para um primo, no qual disse: “Moleque, a situação aqui é desesperadora. Não sei como é essa casa que eu vim parar, mas tem uma coroa dormindo, tem uma novinha dormindo. O namorado da novinha eu não sei onde está, o marido da coroa eu não sei onde está. O que eu faço?”
Cristiana afirma que acordou com Daniel esfregando-se nela, com o pênis ereto e apertando seus peitos, e diz que foi estuprada. As investigações não comprovaram essa hipótese. Henrique, sem poupar o primo, reconhece: “Eu não sei se ele violou ela sexualmente, eu imagino que não, mas o Daniel importunou ela. Isso eu tenho certeza que sim”.
O confronto e a sequência de violência
Edison estranhou a porta do quarto trancada, deu a volta e viu pela janela Daniel deitado com sua esposa. Pulou a janela, arrastou Daniel da cama e começou a agredi-lo. Outros três homens se juntaram a ele: Ygor King, David Willian Vollero e Eduardo Henrique Ribeiro. Os quatro iniciaram uma sessão brutal de espancamento que durou minutos.
Em seguida, Daniel foi arremessado no chão da garagem, muito machucado e quase inconsciente, com a cueca arrancada. Uma testemunha afirma ter ouvido o jogador dizer mais de uma vez que não queria morrer enquanto Edison pegava uma faca sem serra na cozinha. Os quatro o colocaram no porta-malas e saíram.
A morte e o laudo pericial
Segundo relatos de Ygor, Eduardo e David à polícia, quando chegaram numa região de mata aproximadamente 20 minutos de distância da casa, Edison removeu Daniel do carro e usou a faca para cortar seu pescoço. O corte causou hemorragia externa que provocou a morte, conforme apontado pelo laudo pericial. Ainda segundo os três, Edison arrancou o órgão genital da vítima, arremessou para longe e arrastou o corpo para fora da estrada.
O laudo pericial constatou um “extenso ferimento disposto em quase toda a circunferência da região cervical”, de modo que a cabeça foi praticamente separada do pescoço com apenas três centímetros de pele íntegra restante. Também houve “amputação peniana total”, com o órgão encontrado sobre uma árvore próximo ao corpo. Na denúncia entregue ao Ministério Público do Paraná, a polícia não descartou a possibilidade de a amputação ter ocorrido antes do ferimento fatal no pescoço, além de indicar indícios de que Daniel foi imobilizado por uma ou mais pessoas durante a sessão de tortura.
O corpo foi encontrado entre 10 e 11 horas da manhã do sábado, 27 de outubro. A identificação inicial ocorreu graças à cicatriz do joelho que Daniel carregava, o mesmo joelho que o atormentara nos últimos anos de carreira.
O dia em que a família perdeu Daniel
Dona Eliana Aparecida Corrêa, mãe de Daniel, não tinha notícias do filho havia quase dois dias e estava preocupada. A última informação que tinha era que ele havia ido a uma festa em Curitiba na noite de sexta-feira. As chamadas para seu celular não completavam e as mensagens não acusavam recebimento.
Após mais de uma hora de angústia, alguém da família descobriu que a festa era o aniversário de Allana Brittes numa casa de show na capital paranaense. Henrique relata: “Meus primos conseguiram falar diretamente com a Allana. Ela disse que o Daniel tinha ido para a casa dela depois da festa, dormiu lá, acordou e foi embora. Que ele pegou um Uber e foi embora”.
Allana vivia em São José dos Pinhais na região metropolitana de Curitiba. A polícia concluiu que ela sabia o que o pai havia feito mas tentou fraudar a investigação com informações falsas e mentiu para a família da vítima. Numa testemunha em depoimento, uma tia de Daniel contou que Allana foi “extremamente solícita o tempo todo”, se colocando à disposição para ajudar. Ela ofereceu telefones de hotéis onde o jogador poderia ter se hospedado, por exemplo.
Um dos primos de Daniel, temendo o pior, passou a contatar a polícia e hospitais de São José dos Pinhais. Ligou também para o Instituto Médico Legal, onde recebeu a informação de que um corpo ainda sem identificação encontrado na manhã do dia anterior tinha as mesmas características: um rapaz branco, aproximadamente 25 anos, sem tatuagens. Foi assim que a família de Daniel descobriu que ele havia falecido.
Oito anos depois: o luto silencioso e a revolta
A mãe de Daniel não comenta o ocorrido. Pessoas próximas à família aconselharam a reportagem do ge a nem procurá-la. Em meio ao luto de um caso que teve desfecho apenas dois anos atrás, com o júri popular determinando a sentença dos envolvidos, a família prefere não reabrir a ferida e mantém o silêncio.
Henrique, dois anos mais jovem que o primo com quem foi criado como irmão, narra como aquele dia foi um mergulho no desespero. Ele cogitou diversas causas para a morte, mas nenhuma delas foi assassinato: o Daniel “nunca brigou nem com uma formiga, nunca teve uma treta”. Ao pesquisar as primeiras informações em portais locais, deparou-se com detalhes perturbadores sobre as circunstâncias do crime.
O corpo de Daniel estava desfigurado. Por isso, a identificação inicial foi possível apenas graças à cicatriz no joelho. As marcas e escoriações sugeriam um espancamento selvagem. Henrique conclui: “O que fizeram com ele foi uma covardia”. E reforça: “Tudo isso foi muito frio, muito macabro mesmo. Lembra crimes de 500 ou mil anos atrás, que as pessoas morriam com a cabeça decapitada e outras coisas mais. Nada que ele possa ter feito justifica isso.”
Fonte: ge > são paulo
Perguntas frequentes
Em que clube Daniel Corrêa estava quando foi assassinado?
Daniel estava emprestado ao São Bento quando foi assassinado em outubro de 2018.
Qual foi o primeiro gol marcante da carreira de Daniel?
Daniel marcou um hat-trick em maio de 2014 na vitória de 6 a 0 do Botafogo sobre o Criciúma pelo Brasileirão.
Quantas vezes Daniel Corrêa rompeu o ligamento cruzado?
Daniel rompeu o ligamento cruzado anterior duas vezes: em setembro de 2014 contra o Ceará pela Copa do Brasil, e novamente em janeiro de 2015 quando subia as escadas de sua casa.