Em resumo
- Departamento de Scout com 7 pessoas monitora 4.300+ jogadores em 2 anos, usando 4 categorias de decisão e 3 frentes de busca estratégica para compensar orçamento menor.
- 122 atletas de 'meia confecção' atuam na base do São Paulo, sendo 36 dos 54 do sub-20, trazidos de forma gratuita após destacarem-se em outros clubes.
- Marvin Ávila foi identificado na Concacaf 2025 através de monitoramento remoto e negociado por risco baixo, marcando seu primeiro gol pelo sub-20 após chegada.
Quando o adolescente Marvin Ávila, 18 anos, oriundo da Guatemala, entrou em campo pelo sub-20 do São Paulo nas últimas semanas, a nacionalidade inusitada despertou curiosidade entre torcedores e especialistas. Como o clube havia identificado um talento em um mercado tão distante geograficamente? A resposta repousa em um departamento estruturado, com diretrizes precisas e presença em competições que vão muito além do eixo Rio-São Paulo.
Quando Luan Faria chegou ao cargo de coordenador do Departamento de Scout de base, encontrou processos informais de contratação. Empresários ofereciam jogadores via clipes de 30 segundos; gerentes e treinadores indicavam nomes baseados em partidas isoladas. Em setembro de 2024, reformulou o fluxo de trabalho e implantou estratégias de monitoramento remoto que hoje guiam cada recomendação. O resultado: uma equipe de sete pessoas responsável por avaliar jogadores em larga escala, sem orçamento de deslocamento comparável aos rivais.
A categoria intermediária que alimenta a base
O São Paulo trabalha com a noção de jogadores de “meia confecção”: atletas que começaram sua formação em outro clube, ganharam algum destaque, mas não foram bem aproveitados. O clube os traz frequentemente de forma gratuita, apostando em histórico comprovado e indicadores técnicos de potencial. Hoje, 122 atletas nas categorias de base se encaixam nesse molde, concentrando 36 dos 54 integrantes do sub-20.
O restante da categoria sub-20 chegou ao clube através da formação própria desde o sub-10. A proporção reflete a aposta do departamento em jogadores com alguma experiência, nem totalmente formados, nem completamente prontos para elite. Esse equilíbrio entre base interna e reforços captados é intencional: permite ao clube equilibrar custos com uma curva de desenvolvimento mais previsível.
Como funciona a máquina de análise
Os quatro filtros de decisão
Cada um dos quatro scouts do departamento acompanha cerca de 70 jogos por semana, cobrindo múltiplas regiões. Ao final de cada partida observada, o scout preenche um relatório categorizando sua impressão em quatro opções: desempenho, monitorar, aprofundar ou descartar. A categoria “desempenho” marca apenas um jogo acima da média, sem garantir acompanhamento futuro. “Monitorar” e “aprofundar” colocam o jogador em uma lista mais selecionada.
Quando um atleta recebe três marcações desse tipo, ele entra na lista larga do clube e o monitoramento intensifica. A partir daí, o departamento como um todo pode promovê-lo para a “shortlist” ou o “time sombra”: as prioridades reais do mercado por posição. O processo não é rígido; jogadores com potencial excepcional pulam etapas e vão direto ao diálogo de contratação.
A investigação do background
Quando um jogador chega à análise de mercado, Matheus Abreu e Gabriel Joaquim executam um trabalho minucioso. Apuram informações sobre a família, tempo de contrato remanescente e trajetória completa. Coletam referências discretamente com conhecidos do meio, sem sinalizar interesse. Essa fase constrói um “apanhado da vida” do atleta que norteia decisões sobre viabilidade de negociação e potencial de adaptação.
O banco de dados central
Ao longo dos últimos dois anos, o departamento relatou mais de 4.300 jogadores. Esses dados formam um banco que Matheus Abreu descreve como ferramenta para “embasar o tomador de decisão”. Os relatórios não determinam contratações, mas fornecem informações concretas quando empresários oferecem nomes espontaneamente. O que antes era decisão baseada em vídeos de 30 segundos agora tem respaldo de semanas ou meses de monitoramento.
Três frentes de busca estratégica
O departamento classifica seus alvos em três categorias de foco: competições-alvo, clubes-alvo e atletas precoces. Essa estrutura permite cobrir mercados que rivais com orçamentos maiores costumam negligenciar. Na Guatemala, por exemplo, o São Paulo estava observando a Concacaf de 2025, a confederação centro-americana de futebol. Marvin Ávila apresentou “aspectos interessantes” naquela competição; quando informações paralelas sinalizaram uma negociação com risco baixo, o clube fez uma visita in loco e fechou o acordo.
Entre competições, o São Paulo segue torneios de grande circulação brasileira como a Go Cup, bem como eventos internacionais de curta duração como a Copa Mitad del Mundo. A cobertura é remota e sistemática, alimentando continuamente o banco de dados de contatos e perfis.
Em relação aos clubes, a estratégia abrange dois tipos. Primeiro, times de menor expressão reconhecidos por trabalho de base sólido, como Retrô-PE e Canarinho Brasil no interior da Bahia. Segundo, clubes grandes rivais onde talentos em desenvolvimento perdem espaço. Djhordrey passou pelo Palmeiras antes de chegar ao São Paulo; Isac veio do Red Bull Bragantino. Quando esses clubes contraem outros jogadores, veteranos caem na hierarquia e ficam “encostados”. É nesse momento que o São Paulo entra em contato com os empresários.
Os atletas precoces recebem atenção especial: meninos atuando em categorias acima de sua idade. Nesse caso, o scout tem instrução de relatar o jogador obrigatoriamente. Matheus Abreu sintetiza a abordagem: “Você vai ter jogadores em clubes que você acredita ser formador de menor expressão. Você vai ter jogadores perdendo espaço em grandes clubes. São vários cenários baseados naquelas estratégias.”
Competindo sem orçamento de ponta
O departamento não dispõe de verba para deslocamentos que clubes maiores têm. Quando Luan Faria assumiu, sequer havia orçamento para viagens básicas de scouts. Dentro dessa restrição, a equipe virou sua própria limitação em vantagem tática. Rivais com vantagem financeira assinam atletas continuamente, o que gera margem de erro. Um jogador que era prioridade vira reserva quando um reforço chega. É quando o São Paulo pisa no acelerador.
O caso de Djhordney é exemplar. O Palmeiras o trouxe, mas após contratações sucessivas, o atleta começou a perder oportunidades. O São Paulo conversou com seu empresário, descobriu que o clube não exerceria a compra obrigatória e estruturou um empréstimo via Novorizontino, construindo uma saída coordenada. Gustavo Santana e Isac passaram por dinâmica similar, aproveitando momentos de falta de espaço em clubes com folhas de pagamento maiores.
A estrutura enxuta do departamento
Sete pessoas formam o Departamento de Scout. Luan Faria coordena. Matheus Abreu e Gabriel Joaquim atuam como analistas de mercado. Os scouts Rodrigo Zirmerman, Eduardo Mendes, Vinicius Gabriel e Marco da Bahia cobrem o terreno. Sem estrutura de inteligência de mercado antes de setembro de 2024, o clube operava por “osmose”: traços soltos, recomendações informais, erros frequentes. Hoje, o processo é sistematizado, mas ainda funciona com recursos limitados comparado a Flamengo, Palmeiras e Vasco.
Quando Marvin Ávila marcou seu primeiro gol
O atacante guatemalteco não demorou a deixar sua marca. Após a contratação, Marvin Ávila registrou seu primeiro gol com a camisa do sub-20 do São Paulo. O feito coroou uma chegada que começou com monitoramento remoto na Concacaf 2025, passa pelo trabalho de investigação de background e chega ao campo como resultado concreto da estratégia. Nenhum acaso ali, apenas sistema funcionando conforme desenhado.
Fonte: ge > são paulo
Perguntas frequentes
O que o São Paulo chama de 'jogadores de meia confecção'?
São atletas que iniciaram formação em outro clube, ganharam destaque mas não foram bem aproveitados. O São Paulo os traz frequentemente de forma gratuita, apostando em histórico comprovado. Hoje, 122 atletas nesse molde atuam nas categorias de base.
Como o Departamento de Scout do São Paulo identificou Marvin Ávila?
Dentro do banco de dados do clube, os scouts identificaram na Concacaf de 2025 que Marvin possuía aspectos interessantes. Aprofundaram a análise e ele se tornou alvo. De forma externa, informações sinalizaram uma negociação com risco muito baixo, levando o clube a fazer uma visita in loco e concretizar a negociação.
Qual era o processo de contratação do São Paulo antes de setembro de 2024?
Era um processo por osmose, baseado em jogos isolados ou indicações de treinadores e executivos, sem análise estruturada. Luan Faria reformulou o fluxo implantando diretrizes de monitoramento remoto. Antes, a margem de erro era absurda quando empresários ofereciam jogadores através de vídeos de 30 segundos; hoje, o departamento já possui relatórios concretos para cada decisão.