Em resumo
- Luan revelou que treinar separado do grupo foi o principal gatilho para sua depressão durante passagem pelo São Paulo, gerando crises de pânico e choro frequentes.
- O volante rejeitou ofertas de rivais com salários maiores e renovou contrato até 2026, mas foi informado um mês depois que seria emprestado, situação que se repetiu pelos próximos anos.
- Confessou ao ge.globo ter enfrentado problemas com bebida durante o pico da depressão e dificuldades com peso durante a recuperação de lesão em 2021.
- Apontou contradição entre diretoria e comissão técnica quanto aos motivos do afastamento, enquanto reconhecia Crespo como seu melhor técnico e Rogério Ceni como ídolo do clube.
Luan havia deixado o São Paulo, mas o que aconteceu dentro do clube ficou marcado em sua saúde mental. Em entrevista exclusiva ao ge.globo, o ex-volante revelou pela primeira vez os detalhes de sua luta contra depressão, crises de pânico e problemas com bebida durante sua passagem pelo Tricolor. A conversa ocorreu quase uma hora na sala de sua casa, onde dois quadros na parede guardavam duas camisas: uma tricolor com o número 13 e outra amarelinha com o número 5, ambas com seu nome. “Essas daí são de quando eu era bom”, brincou ao ge.
A renovação que se tornou contradição
Depois de sofrer lesões entre 2021 e 2022, Luan tinha contrato apenas até o final de 2023. Durante esse período, ficou afastado até resolver sua renovação. Rejeitou ofertas de rivais, inclusive do Botafogo com salários maiores, porque queria ficar no São Paulo. A renovação aconteceu em maio de 2023, estendendo seu vínculo até o final de 2026.
O que viria a seguir desapontaria o volante. Um mês após renovar, foi informado de que não estaria nos planos do clube e seria emprestado. A situação se repetiria nos dois anos seguintes: sempre comunicavam que estava fora dos planos, mas Luan se recusava a sair. “Tem algo que nunca falei: no mês seguinte da minha renovação, me chamaram para falar que eu não iria jogar, que iriam me emprestar. Eu tinha rejeitado propostas melhores para ficar”, afirmou ao ge.
O vazio entre diretoria e comissão técnica
Conforme relatou, a responsabilidade pelos afastamentos era constantemente passada adiante. “Sempre era um jogando para o outro. A diretoria falava que era a comissão, a comissão falava que era a diretoria. Ninguém olhava na minha cara e falava: quem não quer é esse”, explicou. A contradição envolvendo o executivo Rui Costa permaneceu na memória do volante: no ano anterior ao afastamento prolongado, Costa não o liberou após proposta do Botafogo, argumentando que havia se recuperado. Pouco tempo depois, foi colocado fora dos planos do próprio São Paulo.
Treinar separado despertou a depressão
Para Luan, o isolamento físico no campo foi mais prejudicial que qualquer decisão administrativa. Passou a treinar em horários alternativos, frequentemente sozinho, apenas supervisionado por membros da comissão técnica, correndo ao redor do gramado e batendo bola no “paredão”. Esse afastamento do grupo, segundo revelou ao ge, foi o principal gatilho da depressão. “Treinar separado foi o que despertou a depressão. Eu entrei com 11 anos, fui campeão, fiz gol em final, ajudei. E o mínimo que eu pedia era continuar treinando com o grupo. Só precisava estar no grupo”.
O volante havia conquistado o título da Copa do Brasil e participado de campanhas importantes, mas sentia que sua contribuição não era reconhecida. “Não era nenhum Rogério Ceni, Kaká, Luís Fabiano, Lugano, esses caras que são ídolos, mas de alguma forma ajudei a quebrar um tabu de anos”, refletiu em conversa com o ge. A torcida, entretanto, formou uma percepção diferente durante aquele período. “A torcida ficou com a imagem de que fiquei três anos lá comendo, bebendo e roubando o clube. Minha relação com a torcida mudou muito, acharam que fiz corpo mole, queria dinheiro e pegaram birra, mas não foi isso”.
Crises de pânico e noites de choro
O impacto da depressão se refletia nos momentos mais simples. Luciano, Alan Franco, Jandrei e Alisson tentaram visitá-lo em sua casa, mas Luan não conseguiu recebê-los. “Eu me tranquei no quartinho e fiquei chorando. Eu não recebi eles”, contou. Muitas vezes não queria sair de casa, e quando havia jogo do São Paulo, a situação piorava. “Quando tinha jogo do São Paulo eu ficava mal. Eu assistia, mas tinha crise de pânico, de choro”, revelou ao ge.
Lesão, peso e bebida
Os problemas extracampo não começaram com o isolamento do grupo. Ao sofrer a lesão em 2021, Luan enfrentou dificuldades com o peso durante a recuperação. Somente depois da cirurgia descobriu a complexidade da situação: tinha um edema ósseo calcificado no adutor, uma lesão mais delicada do que se pensava. “Quando faz a cirurgia é que descobrem que eu tinha uma situação mais delicada no adutor, um edema ósseo que tinha calcificado. E ali me perguntam: como você estava aguentando jogar e treinar?”, questionou.
Durante o pico da depressão, anos depois, Luan reconheceu ter enfrentado problemas com bebida. “Já tive alguns problemas extracampo, sim, não escondo. Em determinado momento da minha depressão. Eu preferi me calar e fazer o trabalho no dia a dia”, confessou ao ge. Para o volante, essa foi apenas uma faceta de um período mais amplo de dificuldades. “Problema de peso na época da lesão, problema de bebida na época da depressão”, sintetizou.
Crespo, Diniz e a questão Rogério Ceni
Quando questionado sobre seus técnicos no São Paulo, Luan destacou Crespo como aquele que mais extraiu suas características. “Meu futebol com ele cresceu muito. Diniz também foi outro que acreditou muito em mim. Mas se tivesse que escolher, seria o Crespo”, afirmou ao ge. O treinador foi importante não apenas nos momentos de plenitude, mas também na recuperação posterior: “Nesse retorno, conseguiu me recuperar”.
Sobre Rogério Ceni, Luan reconhece ser um ídolo do clube, talvez o maior. Após deixar o São Paulo, enfrentou o ex-técnico como rival, tanto pelo Tricolor quanto pelo Vitória, time para o qual foi emprestado em 2024. “Virou meu rival, conversamos. Não tem como ter um embate com Rogério Ceni e achar que você vai ganhar, ainda mais dentro do São Paulo. Mas, como treinador, não tenho o que falar”, resumiu ao ge.
O impacto dos salários atrasados
A crise administrativa do São Paulo também afetava o elenco de forma tangível. Luciano havia concedido entrevista ao ge mencionando os salários atrasados desde sua chegada. Luan confirmou que isso perturbava os jogadores, embora o grupo nunca tenha deixado de dar o máximo. “Posso falar por mim e pelos meus companheiros: a gente nunca fez corpo mole por salário. Sempre foi um grupo muito bom”, destacou. Ainda assim, reconheceu o impacto emocional. “Mas não tem como deixar de dizer que atrapalha. Não importa o dinheiro que tenha, todos têm responsabilidades, família, contas a pagar, e isso mexe um pouco”.
Para Luan, a situação refletia um declínio na gestão do clube. “O São Paulo sempre foi exemplo de gestão. Infelizmente, hoje passa por um momento delicado, tanto financeiramente quanto na política”, observou em conversa com o ge. O volante encerrou a entrevista ressaltando que seu amor pelo clube não mudou perante as dificuldades enfrentadas, apesar de tudo o que viveu dentro do Morumbi.
Fonte: ge > são paulo
Perguntas frequentes
O que causou a depressão de Luan no São Paulo?
Treinar separado do restante do grupo foi o principal gatilho da depressão. Luan trabalhava em horários alternativos, frequentemente sozinho, batendo bola no paredão e correndo ao redor do gramado, isolado dos companheiros de trabalho com quem havia convivido por anos.
Por que Luan renovou com o São Paulo se depois foi afastado?
Luan rejeitou propostas de rivais, inclusive do Botafogo com salários maiores, porque queria ficar no São Paulo e renovar em maio de 2023. Um mês depois, porém, foi informado de que não estaria nos planos e seria emprestado, uma contradição que o próprio volante nunca conseguiu entender.
Quais técnicos Luan mais respeitou no São Paulo?
Luan apontou Crespo como seu melhor técnico por ter extraído muito de suas características, seguido por Diniz que também acreditou nele. Respeita Rogério Ceni como ídolo do clube, afirmando que não há como ter embate com o lendário goleiro e técnico.